terça-feira, 23 de dezembro de 2014

"Até amanhã"

..., Raquel Díaz Reguera, Espanha

«É urgente o amor. 
É urgente um barco no mar. 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, 
muitas espadas. 

É urgente inventar a alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanecer.» 
«Urgentemente», in Até Amanhã, Eugénio de Andrade

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

o desafio de ler a história

Sintra, Portugal

«A fotografia, antes de tudo é um testemunho. Quando se aponta a câmara para algum objeto ou sujeito, constrói-se um significado, faz-se uma escolha, seleciona-se um tema e conta-se uma história, cabe a nós, espectadores, o imenso desafio de 
lê-las.»
Ivan Lima

sábado, 15 de novembro de 2014

"Humanidade"

A Viagem do Elefante, Miloš Jarić, Sérvia

«Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca tiveram.»
A Viagem do Elefante, José Saramago
encontros inesperados e felizes

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Kimmo Pohjonen



Amanhã, às 21h30, no Teatro das Figuras, em Faro

O acordeonista finlandês tem "uma abordagem tão punk quanto jazzística, em que podemos vê-lo como alguém a tentar domar um animal selvagem que teima em escapar-lhe." in Público

Parece-me que vou gostar! 

domingo, 2 de novembro de 2014

13| livrarias e bibliotecas no mundo

Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro, Brasil

No Rio de Janeiro há lugares que não podemos deixar para trás. Não só pelo que representam na nossa cultura e na nossa língua, mas também pela sua enorme beleza arquitetónica. 

O Real Gabinete Português de Leitura situa-se bem no centro do Rio de Janeiro, na rua Luís de Camões, n.º 30. Se um dia passarem pelo Rio, entrem.

Não há como descrever este espaço de leitura, porque as palavras jamais conseguirão transmitir o quanto nos sentimos pequenos em tão belo lugar. Se há lugares que merecem silêncio em vez de palavras, então este é um desses espaços mágicos em que o melhor é entrar e contemplar toda a sua imensidão de grandiosa maravilha.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

«Não posso adiar o amor»

..., Zurab Martiashvili, Geórgia

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século
a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração 
in "Viagem Através de uma Nebulosa", António Ramos Rosa

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

15.ª Festa do Cinema Francês


Com a chegada do mês de outubro, chega também o entusiasmo da Festa do Cinema Francês! Este ano a 15.ª edição vai estar presente em 18 cidades. O que considero excelente! 

Lisboa, Seixal, Coimbra e Portimão já foram brindadas com a animação desta festa francesa. Hoje chega à cidade do Porto, seguida de Faro, Santarém, Braga, Guimarães, Leiria, Beja, Caldas da Rainha, São Pedro do Sul, Viana do Castelo, Almada, Setúbal, Aveiro e Funchal, que encerra a 28 de novembro. 

Faro celebra o cinema francês entre os dias 21 e 26 de outubro, e as minhas preferências para este ano são:
- Sur le chemin de l’ école, Pascal Plisson (documentário); 
(Devia ser visto por todos nós. Obrigatório. O melhor dos melhores!)
- Hope, Boris Lojkine (drama);
(uma dura realidade, um murro que nos desperta.) 
- Libre et assoupi, Benjamin Guedj (comédia);
(uma comédia inteligente e muito boa.)
Né quelque part, Mohamed Hamidi (comédia);
(uma história com final feliz.)
Attila Marcel, Sylvain Chomet (comédia).
(um pouco fantasioso. Esperava algo melhor.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"Dia da Ira"

Hope, autor desconhecido

«Apetece cantar, mas ninguém canta. 
Apetece chorar, mas ninguém chora. 
Um fantasma levanta 
A mão do medo sobre a nossa hora. 

Apetece gritar, mas ninguém grita. 
Apetece fugir, mas ninguém foge. 
Um fantasma limita 
Todo o futuro a este dia de hoje 

Apetece morrer, mas ninguém morre. 
Apetece matar, mas ninguém mata. 
Um fantasma percorre 
Os motins onde a alma se arrebata. 

Oh! Maldição do tempo em que vivemos, 
Sepultura de grades cinzeladas 
Que deixam ver a vida que não temos 
E as angústias paradas.» 
«Dies Irae», in "Cântico do Homem", Poesia Completa, Miguel Torga

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Tão longe, tão perto

Lagoa, Portugal

As palavras são poucas para espelhar os sentires e as emoções que todos os dias marcam a distância deste ano. 
São os momentos de ausência no despertar das manhãs e as conversas demasiadamente curtas no final das noites, que ditam o passar das semanas. 
A contagem decrescente no calendário não é sinónimo de suavização de saudade, mas atenua a dor no coração. 
Há dias cinzentos, azuis e de todas as cores. Há dias e dias. E há sempre a esperança no dia do regresso a casa. 
Até lá fica o pensamento no sabor dos dias vividos, o calor do abraço na despedida e o sorriso nas palavras que chegam.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Logofobia

Comportamento, Negreiros, Brasil

Logofobia, s. f. aversão a leituras e discursos; receio de falar, sintoma comum em gagos que sofrem de um bloqueio afetivo da palavra.   (Do grego lógos, «palavra; conversação» +phóbos, «temor» +-ia) 
in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora

Do que me fui lembrar hoje! O dia até está demasiado quente e eu devia era estar de toalha estendida na praia a relaxar ou a dar umas braçadas no mar, que ao que parece a água pelos algarves finalmente aqueceu. Mas as férias já lá vão... E eu lembrei-me de fobias. 

Logofobia. Assim se designa o nome técnico deste temor.  

Não sou de grandes fobias, mas se há coisa que nunca gostei foi de falar em público. Não é bem gostar é mais pânico! Nos tempos de estudante, as apresentações de trabalhos eram um martírio e dias antes já andava com suores, tremuras, vómitos e noites mal dormidas. Sempre com a cabeça a martelar no dia fatídico e na tortura por que iria passar com tal experiência.

Segundo os especialistas, "o medo de falar em público pode ser definido como uma resposta desproporcionada: o sistema nervoso autónomo confunde uma preocupação com uma ameaça (como se corrêssemos o risco de ser atropelados, por exemplo) e então acelera-se o ritmo cardíaco e começamos a hiperventilar." (in Super Interessante, n.º 194, junho 2014).

Claro que há imensos truques que ajudam ao relaxamento, mas lamentavelmente nunca funcionaram comigo... 

Agora esses dias de grande ansiedade já lá vão, mas a verdade é que há coisas que não conseguimos controlar de todo. 

E as vossas fobias, quais são?
________________
Nota: O número de fobias parece não ter fim. No wikipédia podem consultar a lista de fobias, mas não se assustem. 
J

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

"a gaiola estava dentro deles"

Passarinho, Marcos Guilherme, Brasil

«Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora.» 
A Boneca de Kokoschaka, Afonso Cruz

terça-feira, 12 de agosto de 2014

"Oh Captain, my Captain"

Clube dos Poetas Mortos (1989) 

Robin Williams marcou uma geração e não dá como não lhe sentir a falta. 

Os papéis e os filmes foram muitos e alguns bem memoráveis tais como: as locuções vibrantes de Adrian Cronauer em Bom-dia, Vietnam, ou o eloquente John Keating em Clube dos Poetas Mortos, o analista em crise emocional Sean Maguire em O Bom Rebelde (que lhe valeu um óscar para melhor ator secundário), ou até o apaixonante Daniel Hillard e/ou a querida Mrs. Doubtfire em Papá para Sempre

À inteligência e simpatia no sorriso, brindava-nos com boas gargalhadas e agora ficou mais um vazio nesta chuva de estrelas, que nos vai entrando pelo écran adentro... Ontem o cinema ficou mais pobre.

 “A tragédia da vida não está na morte, 
mas naquilo que morre em nós enquanto estamos vivos.” 
Robin Williams (1951-2014)

domingo, 10 de agosto de 2014

«a difusão do saber é um risco»

«Se me oferecessem a sabedoria com a condição de a guardar para mim sem a comunicar a ninguém, não a quereria.» 
Lúcio Aneu Séneca

O catalão Eduardo Roca foi o autor escolhido para a leitura de praia deste ano. Apesar de A Oficina dos Livros Proibidos não ser propriamente um livro de fácil transporte, pois tem 559 páginas, estava curiosa por o ler o quanto antes.

Os primeiros capítulos do romance não foram fáceis de captar-me a atenção. Tive até alguma dificuldade em ficar presa à história. Contudo, fui sempre insistindo e aos poucos e poucos o autor conseguiu que me embrenha-se na leitura até ao ponto de já não ser tão fácil de largar.

Com A Oficina dos Livros Proibidos viajamos até ao século XV. Entre capítulos alternados, o autor dá-nos a conhecer os diferentes personagens de Colónia, a cidade mais antiga do Império. Lorenz Block, o ourives, e a sua filha Erika, Nikolas Fischer, o copista, e o seu filho Alonso, Ilse ou Olga, a criada de Nikolas e apaixonada de Lorenz, Heller Overstolz, o burgomestre, Dieter von Morse, o arcebispo, são alguns dos personagens que vão mudar o rumo da História. 

A Europa continua empestada de superstições e velhas crenças e o saber ainda está ao alcance de alguns, mas um grupo de eruditos pretende mudar a forma como o povo tem acesso ao conhecimento. O círculo é bastante restrito e reúne-se na clandestinidade para não levantar suspeitas. São eles, o padre Martin Wahrheit, o livreiro  Johann Buchmann, o comerciante Yago e os professores Stan Weigand (especialista na ciência da vida), Leopold Trimm (especialista na anatomia do homem), Merrill Severin (mestre em ética), Ritter Griep (artista do pincel) e Ulbrecht Harde (um estudioso e apaixonado dos textos greco-latinos). 

Cedo Lorenz Block passa a fazer também ele parte deste grupo clandestino, pois terá um papel importante na difusão do saber ao criar uma prensa. Com esta invenção, Lorenz consegue imprimir vários exemplares em menor tempo que um copista. O ourives tem consciência que o perigo está à espreita, mas já não consegue parar o inevitável. Há um desejo maior. Um compromisso. O de difundir, através dos livros, o conhecimento. Não podia deixar de lutar, em memória dos seus amigos que perderam a vida em defesa deste bem comum.

Mais tarde esta aventura leva-lhe até Estrasburgo, onde conhece Johannes Gutenberg. Este personagem histórico confessa-lhe que pretende voltar à sua terra natal, Mogúncia, e assim fabricar a sua própria imprensa, pois «Ninguém pode deter o progresso. E menos ainda o cabeçudo Johannes Gutenberg!»

Como A Oficina dos Livros Proibidos tem um ambiente de época envolvente e o tema histórico é bastante atrativo, o leitor não desiste. Mesmo assim, Eduardo Roca peca por desenvolver devagar. No meu entender, são capítulos a mais para pouca ação.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

a Fé de Javi

Catedral de Girona, Espanha 

- ¿Abuelo qué es la fe? Perguntava Javi enquanto, esmorecido, subia as escadas da Catedral, com o seu avô Toño. 
- La fe es algo que creemos mucho. ¡Javi, no puedes rendirte ahora que todavía no han llegado a la cima! 
- ¿Abuelo... Tenemos que creer mucho para tener fe? 
- Sí, pero tenemos que creer en la fe. 
- ¡Pero entonces tenemos que parar! 
- ¿Por qué, Javi? 
- Porque hoy me desperté con una fe cansada.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

«A Casa dos Espíritos»

Quanto mais leio Isabel Allende, mais me apaixono pela sua escrita, pelas suas histórias e pelos seus personagens tão bem caracterizados. 

A Casa dos Espíritos narra a saga da família Trueba. A história é passada no Chile, desde a década de 20 aos anos 70, e é tão intensa e envolvente, que o leitor sente-se completamente embrenhado nesta dinastia. 

Esteban Trueba é o patriarca teimoso, colérico e de feitio não muito afetuoso, que levou a vida a pulso. Tudo o que conseguiu foi com o suor da sua luta e trabalho. Ergueu Las Tres Marias, a terra da sua família, fez fortuna e ganhou estatuto social. Já cansado de semear bastardos pela região, decide casar com Clara, a irmã mais nova de Rosa, a noiva falecida. Clara é fantasista e tem poderes sobrenaturais. Da união de ambos nascem Blanca, Nicolau e Jaime. Blanca apaixona-se por Pedro Tercero Garcia desde a infância e desta paixão nasce Alba, a neta por quem o senador Trueba mostra todo o seu afeto. 

O relato da vida de Esteban Trueba, um homem carregado de defeitos e virtudes, e da sua família, que se estende por três gerações, está povoado de personagens dotadas de forças e temperamentos extraordinários, que não se perdem mesmo depois de mortos. A positividade está nas mulheres desta família. Elas são a força, a energia e a fuga para o que é mágico. Através desta narrativa, repleta de um realismo fantástico, vamos também tomando conhecimento da evolução social do país. Das atrocidades vividas pelo povo chileno no regime de Pinochet. Da luta pela liberdade de um povo e de um país, que podia muito bem ser qualquer país latino-americano. Da escuridão e da esperança que nos chega pela voz de Alba.

«Quero pensar que o meu ofício é a vida e que a minha missão não é prolongar o ódio, mas apenas encher estas páginas enquanto espero o regresso de Miguel, enquanto enterro o meu avô que descansa agora a meu lado neste quarto, enquanto aguardo que cheguem tempos melhores, gerando a criança que trago no ventre, filha de tantas violações ou talvez filha de Miguel, mas sobretudo minha filha.»

Isabel Allende neste seu primeiro romance, cheio de vida própria, narra com mestria uma formidável saga familiar onde os personagens ficcionais caminham lado a lado com os reais. Mesmo que nunca mencionados, sabemos que o poeta Pablo Neruda e o presidente Salvador Allende fazem parte desta história magistral. 

Não há como negar, a literatura latino-americana é sublime.

domingo, 25 de maio de 2014

trinta mil dias

..., Fátima Afonso, Portugal

«Fiz ontem as contas e foram mais de trinta mil os dias em que adormecemos e acordámos juntos, na cama onde agora te escrevo e de onde espero sair para ir de novo até ti. Trinta mil dias a olhar-te dormir, a saber o frio ou o calor do teu corpo, a perceber o que te doía por dentro, a amar cada ruga a mais que ia aparecendo. Trinta mil dias de eu e tu, desta casa que um dia dissemos que seria a nossa (que será de uma casa que nos conhece tão bem quando já aqui não estivermos para a ocupar?), das dificuldades e dos anseios, dos nossos meninos a correr pelo corredor, da saudade de nos sabermos sempre a caminho de sermos só nós. Trinta mil dias em que tudo mudou e nada nos mudou, das tuas lágrimas tão bonitas e tão tristes, das poucas vezes em que a vida nos obrigou a separar (e bastava uma tarde longe de ti para nem a casa nem a vida continuarem iguais). Trinta mil dias, minha velha resmungona e adorável. Eu e tu e o mundo, e todos os velhos que um dia conhecemos já se foram com a velhice. Nós ainda aqui estamos, trinta mil dias depois, juntos como sempre. Juntos para sempre. Trinta mil dias em que desaprendi tanta coisa, meu amor. Menos a amar-te.» 
Prometo Falhar, Pedro Chagas Freitas

quinta-feira, 22 de maio de 2014

«La Grande Bellezza»


A propósito da 7.ª edição da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, que teve lugar na semana passada em Loulé, tenho de vos falar do filme de encerramento, A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro 2014.

Toni Servillo interpreta maravilhosamente o personagem principal, Jap Gambardella, um escritor sexagenário, que vive à sombra do sucesso que teve o seu único romance. A sua vida é um sem fim de festas de luxo e prazeres. Agora ao festejar o seu 65.º aniversário toma consciência que, apesar de sempre se ter considerado um homem feliz e realizado, não deixou de ter uma existência essencialmente frívola.

Pelos olhos de Jap vemos as suas deambulações pela vida, as suas memórias e o amor perdido. As conversas e as festas com amigos são uma constante, mas são cada vez mais um poço vazio de futilidades. Não há fé, nem crença para suportar a decadência do corpo e sustentar o espírito. Há um constante entristecer da alma, que já não é preenchido pela vida que teve de bon vivant. O seu mundo interior está a devastar-se e o tempo escasseia. Jap tenta encontrar na sua vida trágico-cómica a beleza, a grande beleza sempre imaginada e idealizada, para assim tapar o cinismo da realidade e a melancolia que lhe cobre os dias.

A Grande Beleza é um retrato delirante da vida, da decadência, do tempo que nos foge, do vazio, do todo e do nada. Resta-nos sonhar. Um filme que mexe, faz pensar e questionar. «««««

terça-feira, 20 de maio de 2014

«Maus», de Art Spiegelman


Já falei desta obra de Art Spiegelman por diversas vezes e agora volto a falar de Maus, porque na semana passada, dia 16 de maio, soube do lançamento desta nova edição num único volume pela Bertrand Editora. 

A publicação em português dos dois volumes de banda desenhada estava desaparecida fazia bastante tempo e por isso foi com surpresa e com imenso agrado que soube desta feliz notícia, que agora partilho aqui com todos vocês.

Maus não é mais um livro sobre o Holocausto, mas sim o livro que todos deveriam ler. Através da BD, Art Spiegelman conta-nos a história de seu pai, Vladek Spiegelman, um judeu sobrevivente da Europa de Hitler. O processo utilizado pelo o autor, onde os Nazis são os gatos; os Judeus, os ratos; os polacos não-judeus, os porcos e os americanos, os cães, faz deste clássico da BD uma obra extremamente crua, perturbadora e tocante. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

7.ª Festa do Cinema Italiano


Já passou por Lisboa, Coimbra, Porto, Funchal e hoje chega à cidade de Loulé a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, que já está na sua 7.ª edição. 

Fiquei contente em saber que o Cine-Teatro Louletano volta a receber, pelo segundo ano consecutivo, esta mostra de cinema italiano, que estará até domingo, dia 18 de maio. 

O ano passado, o acolhimento desta iniciativa por parte do público foi bastante satisfatório e considerei os filmes selecionados cinco estrelas. Mas a comédia de abertura do festival, Una Famiglia Perfetta, de Paolo Genovese, foi realmente o meu eleito. Pelos personagens, pela história, pela comicidade e pelas mensagens retidas. Hilariante! 

Este ano já estive a ver o programa e escolhi dois filmes: Viva a Liberdade, de Roberto Andò e A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino. E ainda quero aproveitar o workshop Italiano per principianti. :) 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

«A grande loucura» de Selarón



Escadaria do Convento de Santa Teresa no Rio de Janeiro, Brasil

«A grande loucura» de Selarón, pintor e ceramista autodidata chileno, pode ser vista e apreciada à medida que subimos os 215 degraus da escadaria do Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. 

Esta obra de arte teve o seu início em 1990 e é uma grande homenagem do pintor ao povo brasileiro. Em 1998, quando a obra estava quase pronta, Selarón teve conhecimento de um lugar que vendia azulejos europeus para colecionadores, então teve a ideia de trocar os azulejos já postos, por outros que ia comprando, transformando a obra "mutante, uma obra de arte viva". E assim, pouco a pouco, a escadaria tornou-se numa verdadeira coleção de azulejos de todo o mundo, com mais de dois mil azulejos diferentes.

Para além do Brasil, a escadaria de Selarón tem azulejos de mais 47 países tais como: Portugal, Espanha, Inglaterra, Escócia, Irlanda, Alemanha, França, Marrocos, Holanda, Grécia, Itália, Iraque, Síria, Paquistão, Índia, China, Japão, África do Sul, Nigéria, Argentina, Chile, Perú, Bolívia, E.U.A., entre muitos outros países. 

Selarón teve ainda a oportunidade de pintar alguns azulejos, que também estão expostos nesta enorme montra de arte e refere num deles, logo à entrada da escadaria, que só "acabarei este sonho louco e inédito no último dia da minha vida..."

Foi encontrado morto na escadaria na manhã do dia 10 de janeiro de 2013.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

«Favela»

Favela da Mangueira no Rio de Janeiro, Brasil

Numa vasta extensão 
Onde não há plantação 
Nem ninguém morando lá 
Cada um pobre que passa por ali 
Só pensa em construir seu lar 

E quando o primeiro começa 
Os outros depressa 
Procuram marcar 
Seu pedacinho de terra pra morar 
E assim a região 
Sofre modificação 
Fica sendo chamada 
De a nova aquarela 

É aí que o lugar 
Então passa a se chamar favela
Favela, Padeirinho da Mangueira e Jorge Pessanha

quinta-feira, 1 de maio de 2014

12| livrarias e bibliotecas no mundo

Garagem dos Livros em Porto Alegre, Brasil

Num feliz acaso, encontrei no Brasil esta Garagem dos Livros, situada no centro histórico de Porto Alegre, perto da Usina do Gasômetro, na Rua General Salustiano, 214. Este maravilhoso alfarrabista (sebo, no português do Brasil), para além de ter imensas preciosidades literárias é também um espaço cultural muito característico e genuíno.

Foi com simpatia que me deixaram explorar esta garagem apinhada de estantes de livros e decorada com quadros de autores e artistas de cinema. Percorri com os dedos algumas lombadas de livros tão usados e claro que rapidamente encontrei os nossos autores portugueses, Fernando Pessoa e Eça de Queirós. Também lá descobri alguns estrangeiros conhecidos como Virginia Woolf, Thomas Mann, Oscar Wilde, Luigi Pirandelo, Shakespeare, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade.

Lendo um pouco da história do sebo Garagem dos Livros, fiquei a saber que este espaço tão peculiar fez parte da 8.ª edição da Bienal do Mercosul e é o único da capital do Rio Grande do Sul que se incluí no módulo de Cidade Não Vista. Já o dono deste tão especial recanto literário é o senhor João de Souza Machado, de 74 anos, que é mais conhecido por João dos Livros. 

O cheiro do pó dos livros rejuvenesceu a nossa ainda longa caminhada.

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Contos do Nascer da Terra"

Contos do Nascer da Terra. Ao lermos um título assim só nos vem um nome à cabeça: Mia Couto. Há livros que podem ser lidos e relidos vezes sem conta que nunca perdem a sua essência. Este é um deles. Pois em cada palavra de Mia Couto encontramos sempre beleza e poesia. Em cada estória descobrimos pormenores que na primeira leitura tinham passado despercebidos. E depois há sempre aquelas palavras inventadas que nos soam sempre tão bem ao ouvido, que nos perguntamos se poderia haver outro criador para elas, que não fosse o Mia Couto.

Nesta obra, Mia Couto conta-nos 35 estórias cheias de cheiro, de encantamento e de nostalgia. A sua escrita tão característica enche-nos a alma de beleza e seduz-nos a cada palavra. Por isso, há que saborear lentamente estes contos do nascer da terra, sem pressas. E depois de lidos fica a vontade de voltar ao início va-ga-ro-sa-men-te.

«Na vida tudo chega de súbito. O resto, o que desperta tranquilo, é aquilo que, sem darmos conta, já tinha acontecido. Uns deixam a acontecência emergir, sem medo. Esses são os vivos. Os outros se vão adiando. Sorte a destes últimos se vão a tempo de ressuscitar antes de morrerem.»
"A filha da solidão"

sexta-feira, 11 de abril de 2014

"não haverá milagres aqui"

Scottish National Gallery of Modern Art em Edimburgo, Escócia

Não haverá encantamento, nem cegueira
nem loucura, nem obsessão.
Não haverá inquietação, nem ansiedade
nem turbulência, nem descontrolo.
Não haverá promessas, nem cobranças, 
nem desconfiança, nem ciúme.
Não haverá tristeza, nem lágrimas
nem dor, nem ilusão.
Não haverá milagres.
...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Trilho da Praia do Barril

Percurso: Pedestre 
Localização: Pedras d'el Rei, Santa Luzia, concelho de Tavira
Distância aproximada: 3-4 km (ida e volta) 
Duração aproximada: 1h00 
Grau de dificuldade: Baixo 


O trilho da praia do Barril é um percurso integrado no Parque Natural da Ria Formosa, que tem início e término na Ponte de acesso à praia do Barril, em Pedras d'el Rei. 

Ao passarmos a ponte podemos fazer o trilho de comboio, mas não foi a nossa opção. O percurso pode então ser feito por terra batida ou por um passadiço de madeira, que nos acompanha até à praia. 

Enquanto caminhamos do lado da ria, podemos observar a extensa zona húmida de sapal, que nos leva até às dunas. Por esta zona podemos encontrar algumas aves como as garças e as gaivotas, os borrelhos, os alfaiates e os pernilongos. Mas, ao longo do percurso existem diversos pontos de informação que nos elucidam mais sobre a fauna e a flora envolvente. 

No final do percurso temos uma zona de apoio de praia e ao chegarmos à praia, encontramos do lado direito o tão famoso cemitério de âncoras.

Atualmente o espaço comercial da Praia do Barril, bem como a antiga armação de atum, a vizinha vila piscatória de Santa Luzia e a Estação Agrária de Tavira estão a ser impulsionados, desde o ano passado, pelo Projeto Barril. Este projeto, dinamizado por 12 jovens, tem como objetivo esbater a sazonalidade e criar um modelo que assente não só no sol e praia, como também numa forte aposta no "turismo sénior e acessível" e na "dieta mediterrânica".

Para terminar, refiro apenas que o trilho da praia do Barril é um daqueles passeios que sabe sempre bem em qualquer estação do ano!


domingo, 30 de março de 2014

11| livrarias e bibliotecas no mundo

Vuković & Runjić em Zagreb, Croácia

Os dias de chuva são ótimos para ficar em casa a relaxar, mas por vezes ficamos também mais nostálgicos... Ora vasculhando as minhas fotos descobri que ainda não tinha falado de uma pequena e aconchegante livraria de Zagreb! A Vuković & Runjić.

Descobri-a enquanto devorava uma fatia de pizza do outro lado da estrada. Como os bancos da pizzaria ficavam virados para a rua, pude apreciá-la calmamente. Nesse dia não cheguei a entrar. Já estava fechada. Só dias mais tarde, quando voltei a entrar em Zagreb e a calcorrear as ruas da cidade, é que voltei à rua Teslina, 16. 

Nesta pequena livraria, fui encontrar um dos meus livros preferidos: Maus de Art Spiegelman. Foi uma pena estar em croata, senão tinha-o trazido para casa. Percorrendo as imensas capas e lombadas, também lá fui encontrar muitos autores que aprecio, como Dostoiévski, Italo Calvino, Orhan Pamuk e Murakami. Mas do que gostei mais de encontrar foi um livro de um autor português. Tri Života de João Tordo. Ou como quem diz As Três Vidas. É sempre um momento radioso!

sexta-feira, 21 de março de 2014

"Chamo-Te"

Poppies, Mariana Kalacheva, Bulgária

«Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido. 

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, 
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. 

Há muitas coisas que não quero ver. 

Peço-Te que sejas o presente. 
Peço-Te que inundes tudo. 
E que o Teu reino antes do tempo venha 
E se derrame sobre a Terra 
Em Primavera feroz precipitado.»
Chamo-te, Sophia de Mello Breyner Andresen
(Dia Mundial da Poesia) 

domingo, 9 de março de 2014

"Faz o que quiseres"

«Mas tu esqueceste tudo excepto o teu nome. E, se não fores capaz de responder, não podes beber. Por isso, só um sonho esquecido que reencontrares aqui te pode ajudar, uma imagem que te conduza até à fonte. Mas para isso terás de esquecer a última coisa que ainda te resta: tu próprio.» 

A História Interminável, de Michael Ende. Esta é uma daquelas histórias de fantasia intensa. Só quando comecei a descobri-la é que me veio à memória partes de um filme de infância que foi baseado nesta história, A História sem Fim. E só já no final do livro me veio à memória a música “Never Ending Story”, de Limahl. Por acaso, algum de vocês viu o filme ou lembra-se da música?

Bastian Baltasar Bux é o herói desta história com histórias dentro. Bastian é um miúdo infeliz, tímido e gorducho que se refugia nas histórias dos livros que lê, porque não tem amigos. Um dia ao entrar na livraria do Sr. Koreander depara-se com um livro misterioso que o atrai de tal forma, que o obriga a sair dali a fugir com o livro escondido. Já refugiado no sótão da escola, Bastian dá início a uma aventura que poderá não ter regresso. O livro que tem entre mãos chama-se A História Interminável e brevemente irá conhecer, tal como nós que estamos a ler o mesmo livro, Atreiú e Fuchur, o Dragão da Sorte. Os heróis desta história vão empreender uma longa e árdua busca para tentar salvar a imperatriz Criança e a terra da Fantasia. Será que Bastian irá ter coragem para fazer parte da história? Será que conseguirá escapar a Fantasia? 

Michael Ende colocou neste livro todos os ingredientes possíveis e imaginários. Há paisagens completamente impossíveis de imaginar, personagens e criaturas fantásticas, feiticeiras e encantamentos, portas mágicas e outros mundos e tudo o mais que a nossa imaginação possa alcançar. 

Numa história aparentemente para crianças, o autor mostra-nos o quão importante é o valor da amizade e o quanto tudo o que aparentemente fazemos sem maldade pode ter consequências na nossa vida, tanto para o bem, como para o mal. Como é importante saber valorizar-nos e gostarmos de nós tal como somos, não nos anulando. Fala-nos de vontades, desejos e escolhas. De caminhos a seguir e do livre arbítrio. Do cair no vazio e no nada, que pode não ter salvação possível. Mas acima de tudo o autor dá-nos esperança. 

«- AURIN é a porta que Bastian procurava. Trouxe-a sempre consigo desde o princípio. Mas nada do que pertence a Fantasia pode passar a soleira dessa porta, pois as serpentes não o consentem. Por isso, Bastian tem de renunciar a tudo o que a imperatriz Criança lhe deu.»

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

poesia...

Soñando Cuentos, Raquel Díaz Reguera, Espanha


«Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras» 
Robert Frost

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pereira afirma

Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi é um livro muito bom, que se lê num ápice. E mais uma vez agradeço ao Manuel Cardoso, do blogue Dos Meus Livros, por me ter dado a conhecer esta história. Já tinha ouvido falar do filme baseado nesta obra de Tabucchi, mas desconhecia que era passado em plena época salazarista. E este foi o principal motivo que me levou a lê-lo. Como não vivi no Portugal de Salazar, todos os livros que retratem histórias desses tempos de censura são sempre de apetecível leitura.

Tabucchi conta-nos a vida do doutor Pereira, que aparentemente seguia o seu curso sem grandes percalços e agitações. Muito embora tivesse perdido a sua mulher, o doutor Pereira tinha uma vida pacata. Trabalhava no jornal o Lisboa, era o responsável pela secção cultural, dedicava-se a escrever efemérides e a traduzir contos de autores estrangeiros, como Balzac, Maupassant, Daudet, etc.

Não fosse esta história passar-se num Portugal atemorizado e sob escuta, nada mais havia de interesse na vida deste homem, que falava com o retrato da sua esposa, ia ao café Orquídea para comer omeletes com salsa e beber limonadas umas atrás das outras.

Só que ao longo dos capítulos, vamos conhecendo outras histórias. Histórias que falam-nos de pessoas anónimas, que desaparecem ou morrem. Como a que se passou «no Alentejo, [em que] a polícia tinha matado um carroceiro que abastecia os mercados e era socialista»; ou aquela em que «a cidade parecia nas mãos da polícia, [pois] viam-se camionetas e guardas com espingardas, [que temiam] manifestações ou concentrações de rua»;  ou até mesmo a história do talho judeu, que tinha a montra toda estilhaçada e a fachada cheia de palavras «que o homem do talho estava a cobrir com tinta branca», mas estas histórias o Lisboa não publicava. Mas também quem é que as publicava? «Ninguém, porque o país calava-se, não podia fazer mais nada senão calar-se, e entretanto as pessoas morriam e a polícia fazia o que queria.» As conversas andavam de boca em boca, «para se saber de alguma coisa era preciso perguntar nos cafés, ouvir as conversas, era a única maneira de estar ao corrente, ou então comprar um jornal estrangeiro.»

O doutor Pereira não queria saber de políticas e como não queria tomar partido do quer que fosse, nada mais fazia do que dedicar-se à sua página cultural, onde tinha carta branca para publicar os seus contos traduzidos. Mas será que podia mesmo publicar tudo? Será que o doutor Pereira sentia-se realmente confortável na sua vida passiva? Ou será que a revelação da existência de um «eu hegemónico» mostra-lhe que aprecia mais a vida revolucionária dos jovens que tinha conhecido? Será que o doutor Pereira sentia necessidade de se definir, de se demarcar e de operar em si próprio uma mudança de atitude?

Por vezes há que tomar posições e Tabucchi mostra-nos isso mesmo, a tomada de consciência que é necessária, face às iniquidades de todos os dias. O doutor Pereira afirma.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

o «Lisboa» é um jornal independente

Lisboa, Portugal

«... mas desculpe, o que quer dizer um jornal independente em Portugal? Um jornal que não está ligado a nenhum movimento político, respondeu Pereira. Pode ser, disse o doutor Cardoso, mas o director do seu jornal, caro doutor Pereira, é uma personalidade do regime, aparece em todas as cerimónias oficiais, e estende sempre o braço, como um lançador de dardo. Isso é verdade, reconheceu Pereira, mas no fundo não é má pessoa, e no que diz respeito à página cultural deu-me carta branca. É cómodo, objectou o doutor Cardoso, de qualquer modo há a censura prévia, todos os dias, antes de sair, as provas do seu jornal têm de receber o imprimatur da censura prévia, e se houver alguma coisa que não agrade pode estar tranquilo que não é publicada, talvez deixem um espaço em branco, já me aconteceu ver jornais portugueses com grandes espaços em branco, dão-me uma grande raiva e uma grande tristeza.»
Afirma Pereira, Antonio Tabucchi

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

28

Lisboa, Portugal 

Sempre que saía de casa pela manhã os seus passos ligeiros encontravam-se com o 28, que em modo turístico percorria as ruas da cidade.
Havia certos dias ao fim da tarde que gostava de apanhar o 28 na Graça, para entrar num tempo passado. Debruçava-se sobre a janela e de olhar nostálgico tentava desvendar os mistérios da cidade que tanto lhe inspirava. Eram as praças, as ruelas estreitas e íngremes, as colinas e os miradouros, as casas de fado, as residências apalaçadas e as casas burguesas. Era um subir e descer. Era um sem fim de cheiros e sabores, de luz e cor... 
O 28 no seu percurso sem pressa seguia agora em direção ao Miradouro de Santa Luzia. Já o seu destino era a Praça Luís de Camões. Mas tinha tempo. Não iria apressar o fim da sua viagem.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

"o nome de Ivanhoe foi pronunciado"

Neste novo ano decidi dedicar-me mais à leitura. O mês de janeiro foi praticamente todo para um dos clássicos que já esperava por ser lido faz algum tempo. Ivanhoe, de Walter Scott foi sem dúvida um bom começo! 

Muitos de vós já ouvistes ou lestes várias histórias sobre o reinado do Rei Ricardo, Coração de Leão. E claro que todas elas são envolvidas em grandes aventuras de bravura, enaltecendo sempre o heroísmo dos nobres cavaleiros. Pois nesta, em que provavelmente até é o iniciar do primeiro romance histórico, Ivanhoe é o mais bravo cavaleiro da Idade Média. 

A situação da época era bastante conturbada e miserável. A coroa inglesa encontrava-se sem o seu rei. Ricardo tinha sido feito prisioneiro e o seu local de cativeiro era incerto, assim como o seu destino também era desconhecido pelos seus súbditos que, entretanto, estavam sujeitos a todo o tipo de opressões. O príncipe John, principal inimigo mortal de Coração de Leão, era um homem perigoso e cruel e como estava sedento de poder, tinha-se associado a Philip de França e usava a sua influência junto do duque da Áustria, para manter o seu irmão Ricardo indeterminadamente em cativeiro. A floresta era habitada por foras-da-lei, e o chefe de todos eles era o tão conhecido Robin Hood, da floresta de Sherwood.

Neste cenário de guerra surge Wilfred de Ivanhoe, o "Cavaleiro Deserdado", que tem de lutar pelo seu nome, pelos seus direitos, pela mulher que ama desde sempre, Lady Rowena, e que lutará pelo seu povo, ao lado de Ricardo, na recuperação do trono de Inglaterra.

«O nome de Ivanhoe foi pronunciado e a notícia espalhou-se de boca em boca com a celeridade que a sua curiosidade provocou. Não demorou muito a chegar ao círculo do príncipe, cujo semblante se escureceu ao ouvir as notícias.»

Também é bem visível em Ivanhoe, o destaque que Walter Scott dá à forte perseguição aos judeus, com a personagem da bela e doce Rebecca e Isaac, seu pai. Às lutas constantes entre Saxões e Normandos. Com Cedric de Rotherwood, "o saxão, homem de nobre nascimento" a rivalizar com Reginald Front-de-Boeuf, o barão com cicatrizes, que "exprimiam as mais medonhas e malignas paixões da mente". A estranha relação com os Templários, retratados pelo destemível e apaixonado Brian de Bois-Guilbert. E por fim os excessos da igreja.

Com um torneio de cavaleiros, constantes assaltos, uma batalha no Castelo de Torquilstone, uma misteriosa revelação do "Cavaleiro Negro", um salvamento a uma donzela judia e um casamento no final, Walter Scott tem assim, todos os ingredientes para o sucesso junto dos seus leitores. 

Termino, referindo apenas que a edição deste clássico para a coleção Os Grandes Génios da Literatura Universal não prima pela melhor tradução.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

«Contramão»


«Para mim, um Disco é cada vez mais um Livro, uma narrativa contínua de histórias desencontradas que se reencontram na Música que escrevo, de personagens, por vezes atormentadas, outras felizes, de sentimentos de perda ou de conquista que acabam por ser comuns a muitos de nós. Falo de mim através das vozes de outros e transponho-me para os outros usando a minha própria voz. Ao longo de todo este tempo, diria quase desde que me conheço enquanto Músico, procurei melhorar a simplicidade daquilo que verdadeiramente me fascina: escrever Canções. O que aí vem é apenas isso. A minha Vida tornada palavra e harmonia. Se se encontrarem comigo neste trabalho, a minha tarefa estará cumprida e partirei para a estrada já com o próximo disco nas entranhas.» 
Pedro Abrunhosa

Está a chegar o primeiro concerto do ano. 
E vai ser tão bom! :)


Foi tão bom!

'Faro. 31.01.14., Teatro da Figuras. Entrelaçámo.nos. Cumprimo.nos. Intocados, volvemos à nossa paz pessoal depois da Paz colectiva. Assombrámo.nos. Deslumbrámo.nos. Corremos o mundo uns dos outros como se jogássemos ao jogo dos disparates e as palavras tornassem ao palco transformadas pelas identidades de todos, diferentes, melhores, permanentes. Hoje fomos maiores do que a noite e, por isso, a noite foi inteiramente Nossa. Obrigado a todos. Aos presentes e aos que lutaram por bilhete sem, infelizmente, o terem conseguido. Também a vossa força lá esteve.' Pedro Abrunhosa

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Dia de Memória

Maus, Art Spiegelman, Suécia

«Pois também lá, entre chaminés, nos intervalos do sofrimento, algo se assemelhava à felicidade. Toda a gente me pergunta só pelas vicissitudes, pelos «horrores»: todavia, no que me diz respeito, é talvez essa a experiência mais memorável. Sim, é disso, da felicidade dos campos de concentração, que eu lhes falarei na próxima vez, quando me perguntarem. Se é que vão perguntar. E se eu próprio não me tiver esquecido.» 
Sem Destino, de Imre Kertész 

"O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso." 
Imre Kertész, no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002

Dia Internacional de
Memória das Vítimas do
 Holocausto

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