quarta-feira, 25 de Junho de 2014

a Fé de Javi

Catedral de Girona, Espanha 

- ¿Abuelo qué es la fe? Perguntava Javi enquanto, esmorecido, subia as escadas da Catedral, com o seu avô Toño. 
- La fe es algo que creemos mucho. ¡Javi, no puedes rendirte ahora que todavía no han llegado a la cima! 
- ¿Abuelo... Tenemos que creer mucho para tener fe? 
- Sí, pero tenemos que creer en la fe. 
- ¡Pero entonces tenemos que parar! 
- ¿Por qué, Javi? 
- Porque hoy me desperté con una fe cansada.

quarta-feira, 28 de Maio de 2014

«A Casa dos Espíritos»

Quanto mais leio Isabel Allende, mais me apaixono pela sua escrita, pelas suas histórias e pelos seus personagens tão bem caracterizados. 

A Casa dos Espíritos narra a saga da família Trueba. A história é passada no Chile, desde a década de 20 aos anos 70, e é tão intensa e envolvente, que o leitor sente-se completamente embrenhado nesta dinastia. 

Esteban Trueba é o patriarca teimoso, colérico e de feitio não muito afetuoso, que levou a vida a pulso. Tudo o que conseguiu foi com o suor da sua luta e trabalho. Ergueu Las Tres Marias, a terra da sua família, fez fortuna e ganhou estatuto social. Já cansado de semear bastardos pela região, decide casar com Clara, a irmã mais nova de Rosa, a noiva falecida. Clara é fantasista e tem poderes sobrenaturais. Da união de ambos nascem Blanca, Nicolau e Jaime. Blanca apaixona-se por Pedro Tercero Garcia desde a infância e desta paixão nasce Alba, a neta por quem o senador Trueba mostra todo o seu afeto. 

O relato da vida de Esteban Trueba, um homem carregado de defeitos e virtudes, e da sua família, que se estende por três gerações, está povoado de personagens dotadas de forças e temperamentos extraordinários, que não se perdem mesmo depois de mortos. A positividade está nas mulheres desta família. Elas são a força, a energia e a fuga para o que é mágico. Através desta narrativa, repleta de um realismo fantástico, vamos também tomando conhecimento da evolução social do país. Das atrocidades vividas pelo povo chileno no regime de Pinochet. Da luta pela liberdade de um povo e de um país, que podia muito bem ser qualquer país latino-americano. Da escuridão e da esperança que nos chega pela voz de Alba.

«Quero pensar que o meu ofício é a vida e que a minha missão não é prolongar o ódio, mas apenas encher estas páginas enquanto espero o regresso de Miguel, enquanto enterro o meu avô que descansa agora a meu lado neste quarto, enquanto aguardo que cheguem tempos melhores, gerando a criança que trago no ventre, filha de tantas violações ou talvez filha de Miguel, mas sobretudo minha filha.»

Isabel Allende neste seu primeiro romance, cheio de vida própria, narra com mestria uma formidável saga familiar onde os personagens ficcionais caminham lado a lado com os reais. Mesmo que nunca mencionados, sabemos que o poeta Pablo Neruda e o presidente Salvador Allende fazem parte desta história magistral. 

Não há como negar, a literatura latino-americana é sublime.

domingo, 25 de Maio de 2014

trinta mil dias

..., Fátima Afonso, Portugal

«Fiz ontem as contas e foram mais de trinta mil os dias em que adormecemos e acordámos juntos, na cama onde agora te escrevo e de onde espero sair para ir de novo até ti. Trinta mil dias a olhar-te dormir, a saber o frio ou o calor do teu corpo, a perceber o que te doía por dentro, a amar cada ruga a mais que ia aparecendo. Trinta mil dias de eu e tu, desta casa que um dia dissemos que seria a nossa (que será de uma casa que nos conhece tão bem quando já aqui não estivermos para a ocupar?), das dificuldades e dos anseios, dos nossos meninos a correr pelo corredor, da saudade de nos sabermos sempre a caminho de sermos só nós. Trinta mil dias em que tudo mudou e nada nos mudou, das tuas lágrimas tão bonitas e tão tristes, das poucas vezes em que a vida nos obrigou a separar (e bastava uma tarde longe de ti para nem a casa nem a vida continuarem iguais). Trinta mil dias, minha velha resmungona e adorável. Eu e tu e o mundo, e todos os velhos que um dia conhecemos já se foram com a velhice. Nós ainda aqui estamos, trinta mil dias depois, juntos como sempre. Juntos para sempre. Trinta mil dias em que desaprendi tanta coisa, meu amor. Menos a amar-te.» 
Prometo Falhar, Pedro Chagas Freitas

quinta-feira, 22 de Maio de 2014

«La Grande Bellezza»


A propósito da 7.ª edição da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, que teve lugar na semana passada em Loulé, tenho de vos falar do filme de encerramento, A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro 2014.

Toni Servillo interpreta maravilhosamente o personagem principal, Jap Gambardella, um escritor sexagenário, que vive à sombra do sucesso que teve o seu único romance. A sua vida é um sem fim de festas de luxo e prazeres. Agora ao festejar o seu 65.º aniversário toma consciência que, apesar de sempre se ter considerado um homem feliz e realizado, não deixou de ter uma existência essencialmente frívola.

Pelos olhos de Jap vemos as suas deambulações pela vida, as suas memórias e o amor perdido. As conversas e as festas com amigos são uma constante, mas são cada vez mais um poço vazio de futilidades. Não há fé, nem crença para suportar a decadência do corpo e sustentar o espírito. Há um constante entristecer da alma, que já não é preenchido pela vida que teve de bon vivant. O seu mundo interior está a devastar-se e o tempo escasseia. Jap tenta encontrar na sua vida trágico-cómica a beleza, a grande beleza sempre imaginada e idealizada, para assim tapar o cinismo da realidade e a melancolia que lhe cobre os dias.

A Grande Beleza é um retrato delirante da vida, da decadência, do tempo que nos foge, do vazio, do todo e do nada. Resta-nos sonhar. Um filme que mexe, faz pensar e questionar. «««««

terça-feira, 20 de Maio de 2014

«Maus», de Art Spiegelman


Já falei desta obra de Art Spiegelman por diversas vezes e agora volto a falar de Maus, porque na semana passada, dia 16 de maio, soube do lançamento desta nova edição num único volume pela Bertrand Editora. 

A publicação em português dos dois volumes de banda desenhada estava desaparecida fazia bastante tempo e por isso foi com surpresa e com imenso agrado que soube desta feliz notícia, que agora partilho aqui com todos vocês.

Maus não é mais um livro sobre o Holocausto, mas sim o livro que todos deveriam ler. Através da BD, Art Spiegelman conta-nos a história de seu pai, Vladek Spiegelman, um judeu sobrevivente da Europa de Hitler. O processo utilizado pelo o autor, onde os Nazis são os gatos; os Judeus, os ratos; os polacos não-judeus, os porcos e os americanos, os cães, faz deste clássico da BD uma obra extremamente crua, perturbadora e tocante. 

Pinturas populares (últimos 30 dias)