sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

«Não posso adiar o amor»

..., Zurab Martiashvili, Geórgia

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século
a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração 
in "Viagem Através de uma Nebulosa", António Ramos Rosa

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

15.ª Festa do Cinema Francês


Com a chegada do mês de outubro, chega também o entusiasmo da Festa do Cinema Francês! Este ano a 15.ª edição vai estar presente em 18 cidades. O que considero excelente! 

Lisboa, Seixal, Coimbra e Portimão já foram brindadas com a animação desta festa francesa. Hoje chega à cidade do Porto, seguida de Faro, Santarém, Braga, Guimarães, Leiria, Beja, Caldas da Rainha, São Pedro do Sul, Viana do Castelo, Almada, Setúbal e Aveiro, que encerra a 21 de novembro. 

Faro celebra o cinema francês entre os dias 21 e 26 de outubro, e as minhas preferências para este ano são:
Les vacances du Petit Nicolas, Laurent Tirard (comédia);
- Sur le chemin de l’ école, Pascal Plisson (documentário);
- Hope, Boris Lojkine (drama);
- Libre et assoupi, Benjamin Guedj (comédia);
Né quelque part, Mohamed Hamidi (comédia);
Attila Marcel, Sylvain Chomet (comédia).

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

"Dia da Ira"

Hope, autor desconhecido

«Apetece cantar, mas ninguém canta. 
Apetece chorar, mas ninguém chora. 
Um fantasma levanta 
A mão do medo sobre a nossa hora. 

Apetece gritar, mas ninguém grita. 
Apetece fugir, mas ninguém foge. 
Um fantasma limita 
Todo o futuro a este dia de hoje 

Apetece morrer, mas ninguém morre. 
Apetece matar, mas ninguém mata. 
Um fantasma percorre 
Os motins onde a alma se arrebata. 

Oh! Maldição do tempo em que vivemos, 
Sepultura de grades cinzeladas 
Que deixam ver a vida que não temos 
E as angústias paradas.» 
«Dies Irae», in "Cântico do Homem", Poesia Completa, Miguel Torga

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Tão longe, tão perto

Lagoa, Portugal

As palavras são poucas para espelhar os sentires e as emoções que todos os dias marcam a distância deste ano. 
São os momentos de ausência no despertar das manhãs e as conversas demasiadamente curtas no final das noites, que ditam o passar das semanas. 
A contagem decrescente no calendário não é sinónimo de suavização de saudade, mas atenua a dor no coração. 
Há dias cinzentos, azuis e de todas as cores. Há dias e dias. E há sempre a esperança no dia do regresso a casa. 
Até lá fica o pensamento no sabor dos dias vividos, o calor do abraço na despedida e o sorriso nas palavras que chegam.

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Logofobia

Comportamento, Negreiros, Brasil

Logofobia, s. f. aversão a leituras e discursos; receio de falar, sintoma comum em gagos que sofrem de um bloqueio afetivo da palavra.   (Do grego lógos, «palavra; conversação» +phóbos, «temor» +-ia) 
in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora

Do que me fui lembrar hoje! O dia até está demasiado quente e eu devia era estar de toalha estendida na praia a relaxar ou a dar umas braçadas no mar, que ao que parece a água pelos algarves finalmente aqueceu. Mas as férias já lá vão... E eu lembrei-me de fobias. 

Logofobia. Assim se designa o nome técnico deste temor.  

Não sou de grandes fobias, mas se há coisa que nunca gostei foi de falar em público. Não é bem gostar é mais pânico! Nos tempos de estudante, as apresentações de trabalhos eram um martírio e dias antes já andava com suores, tremuras, vómitos e noites mal dormidas. Sempre com a cabeça a martelar no dia fatídico e na tortura por que iria passar com tal experiência.

Segundo os especialistas, "o medo de falar em público pode ser definido como uma resposta desproporcionada: o sistema nervoso autónomo confunde uma preocupação com uma ameaça (como se corrêssemos o risco de ser atropelados, por exemplo) e então acelera-se o ritmo cardíaco e começamos a hiperventilar." (in Super Interessante, n.º 194, junho 2014).

Claro que há imensos truques que ajudam ao relaxamento, mas lamentavelmente nunca funcionaram comigo... 

Agora esses dias de grande ansiedade já lá vão, mas a verdade é que há coisas que não conseguimos controlar de todo. 

E as vossas fobias, quais são?
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Nota: O número de fobias parece não ter fim. No wikipédia podem consultar a lista de fobias, mas não se assustem. 
J

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

"a gaiola estava dentro deles"

Passarinho, Marcos Guilherme, Brasil

«Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora.» 
A Boneca de Kokoschaka, Afonso Cruz

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