terça-feira, 12 de Agosto de 2014

"Oh Captain, my Captain"

Clube dos Poetas Mortos (1989) 

Robin Williams marcou uma geração e não dá como não lhe sentir a falta. 

Os papéis e os filmes foram muitos e alguns bem memoráveis tais como: as locuções vibrantes de Adrian Cronauer em Bom-dia, Vietnam, ou o eloquente John Keating em Clube dos Poetas Mortos, o analista em crise emocional Sean Maguire em O Bom Rebelde (que lhe valeu um óscar para melhor ator secundário), ou até o apaixonante Daniel Hillard e/ou a querida Mrs. Doubtfire em Papá para Sempre

À inteligência e simpatia no sorriso, brindava-nos com boas gargalhadas e agora ficou mais um vazio nesta chuva de estrelas, que nos vai entrando pelo écran adentro... Ontem o cinema ficou mais pobre.

 “A tragédia da vida não está na morte, 
mas naquilo que morre em nós enquanto estamos vivos.” 
Robin Williams (1951-2014)

domingo, 10 de Agosto de 2014

«a difusão do saber é um risco»

«Se me oferecessem a sabedoria com a condição de a guardar para mim sem a comunicar a ninguém, não a quereria.» 
Lúcio Aneu Séneca

O catalão Eduardo Roca foi o autor escolhido para a leitura de praia deste ano. Apesar de A Oficina dos Livros Proibidos não ser propriamente um livro de fácil transporte, pois tem 559 páginas, estava curiosa por o ler o quanto antes.

Os primeiros capítulos do romance não foram fáceis de captar-me a atenção. Tive até alguma dificuldade em ficar presa à história. Contudo, fui sempre insistindo e aos poucos e poucos o autor conseguiu que me embrenha-se na leitura até ao ponto de já não ser tão fácil de largar.

Com A Oficina dos Livros Proibidos viajamos até ao século XV. Entre capítulos alternados, o autor dá-nos a conhecer os diferentes personagens de Colónia, a cidade mais antiga do Império. Lorenz Block, o ourives, e a sua filha Erika, Nikolas Fischer, o copista, e o seu filho Alonso, Ilse ou Olga, a criada de Nikolas e apaixonada de Lorenz, Heller Overstolz, o burgomestre, Dieter von Morse, o arcebispo, são alguns dos personagens que vão mudar o rumo da História. 

A Europa continua empestada de superstições e velhas crenças e o saber ainda está ao alcance de alguns, mas um grupo de eruditos pretende mudar a forma como o povo tem acesso ao conhecimento. O círculo é bastante restrito e reúne-se na clandestinidade para não levantar suspeitas. São eles, o padre Martin Wahrheit, o livreiro  Johann Buchmann, o comerciante Yago e os professores Stan Weigand (especialista na ciência da vida), Leopold Trimm (especialista na anatomia do homem), Merrill Severin (mestre em ética), Ritter Griep (artista do pincel) e Ulbrecht Harde (um estudioso e apaixonado dos textos greco-latinos). 

Cedo Lorenz Block passa a fazer também ele parte deste grupo clandestino, pois terá um papel importante na difusão do saber ao criar uma prensa. Com esta invenção, Lorenz consegue imprimir vários exemplares em menor tempo que um copista. O ourives tem consciência que o perigo está à espreita, mas já não consegue parar o inevitável. Há um desejo maior. Um compromisso. O de difundir, através dos livros, o conhecimento. Não podia deixar de lutar, em memória dos seus amigos que perderam a vida em defesa deste bem comum.

Mais tarde esta aventura leva-lhe até Estrasburgo, onde conhece Johannes Gutenberg. Este personagem histórico confessa-lhe que pretende voltar à sua terra natal, Mogúncia, e assim fabricar a sua própria imprensa, pois «Ninguém pode deter o progresso. E menos ainda o cabeçudo Johannes Gutenberg!»

Como A Oficina dos Livros Proibidos tem um ambiente de época envolvente e o tema histórico é bastante atrativo, o leitor não desiste. Mesmo assim, Eduardo Roca peca por desenvolver devagar. No meu entender, são capítulos a mais para pouca ação.

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

a Fé de Javi

Catedral de Girona, Espanha 

- ¿Abuelo qué es la fe? Perguntava Javi enquanto, esmorecido, subia as escadas da Catedral, com o seu avô Toño. 
- La fe es algo que creemos mucho. ¡Javi, no puedes rendirte ahora que todavía no han llegado a la cima! 
- ¿Abuelo... Tenemos que creer mucho para tener fe? 
- Sí, pero tenemos que creer en la fe. 
- ¡Pero entonces tenemos que parar! 
- ¿Por qué, Javi? 
- Porque hoy me desperté con una fe cansada.

quarta-feira, 28 de Maio de 2014

«A Casa dos Espíritos»

Quanto mais leio Isabel Allende, mais me apaixono pela sua escrita, pelas suas histórias e pelos seus personagens tão bem caracterizados. 

A Casa dos Espíritos narra a saga da família Trueba. A história é passada no Chile, desde a década de 20 aos anos 70, e é tão intensa e envolvente, que o leitor sente-se completamente embrenhado nesta dinastia. 

Esteban Trueba é o patriarca teimoso, colérico e de feitio não muito afetuoso, que levou a vida a pulso. Tudo o que conseguiu foi com o suor da sua luta e trabalho. Ergueu Las Tres Marias, a terra da sua família, fez fortuna e ganhou estatuto social. Já cansado de semear bastardos pela região, decide casar com Clara, a irmã mais nova de Rosa, a noiva falecida. Clara é fantasista e tem poderes sobrenaturais. Da união de ambos nascem Blanca, Nicolau e Jaime. Blanca apaixona-se por Pedro Tercero Garcia desde a infância e desta paixão nasce Alba, a neta por quem o senador Trueba mostra todo o seu afeto. 

O relato da vida de Esteban Trueba, um homem carregado de defeitos e virtudes, e da sua família, que se estende por três gerações, está povoado de personagens dotadas de forças e temperamentos extraordinários, que não se perdem mesmo depois de mortos. A positividade está nas mulheres desta família. Elas são a força, a energia e a fuga para o que é mágico. Através desta narrativa, repleta de um realismo fantástico, vamos também tomando conhecimento da evolução social do país. Das atrocidades vividas pelo povo chileno no regime de Pinochet. Da luta pela liberdade de um povo e de um país, que podia muito bem ser qualquer país latino-americano. Da escuridão e da esperança que nos chega pela voz de Alba.

«Quero pensar que o meu ofício é a vida e que a minha missão não é prolongar o ódio, mas apenas encher estas páginas enquanto espero o regresso de Miguel, enquanto enterro o meu avô que descansa agora a meu lado neste quarto, enquanto aguardo que cheguem tempos melhores, gerando a criança que trago no ventre, filha de tantas violações ou talvez filha de Miguel, mas sobretudo minha filha.»

Isabel Allende neste seu primeiro romance, cheio de vida própria, narra com mestria uma formidável saga familiar onde os personagens ficcionais caminham lado a lado com os reais. Mesmo que nunca mencionados, sabemos que o poeta Pablo Neruda e o presidente Salvador Allende fazem parte desta história magistral. 

Não há como negar, a literatura latino-americana é sublime.

Pinturas populares (últimos 30 dias)