sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Tão longe, tão perto

Lagoa, Portugal

As palavras são poucas para espelhar os sentires e as emoções que todos os dias marcam a distância deste ano. 
São os momentos de ausência no despertar das manhãs e as conversas demasiadamente curtas no final das noites, que ditam o passar das semanas. 
A contagem decrescente no calendário não é sinónimo de suavização de saudade, mas atenua a dor no coração. 
Há dias cinzentos, azuis e de todas as cores. Há dias e dias. E há sempre a esperança no dia do regresso a casa. 
Até lá fica o pensamento no sabor dos dias vividos, o calor do abraço na despedida e o sorriso nas palavras que chegam.

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Logofobia

Comportamento, Negreiros, Brasil

Logofobia, s. f. aversão a leituras e discursos; receio de falar, sintoma comum em gagos que sofrem de um bloqueio afetivo da palavra.   (Do grego lógos, «palavra; conversação» +phóbos, «temor» +-ia) 
in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora

Do que me fui lembrar hoje! O dia até está demasiado quente e eu devia era estar de toalha estendida na praia a relaxar ou a dar umas braçadas no mar, que ao que parece a água pelos algarves finalmente aqueceu. Mas as férias já lá vão... E eu lembrei-me de fobias. 

Logofobia. Assim se designa o nome técnico deste temor.  

Não sou de grandes fobias, mas se há coisa que nunca gostei foi de falar em público. Não é bem gostar é mais pânico! Nos tempos de estudante, as apresentações de trabalhos eram um martírio e dias antes já andava com suores, tremuras, vómitos e noites mal dormidas. Sempre com a cabeça a martelar no dia fatídico e na tortura por que iria passar com tal experiência.

Segundo os especialistas, "o medo de falar em público pode ser definido como uma resposta desproporcionada: o sistema nervoso autónomo confunde uma preocupação com uma ameaça (como se corrêssemos o risco de ser atropelados, por exemplo) e então acelera-se o ritmo cardíaco e começamos a hiperventilar." (in Super Interessante, n.º 194, junho 2014).

Claro que há imensos truques que ajudam ao relaxamento, mas lamentavelmente nunca funcionaram comigo... 

Agora esses dias de grande ansiedade já lá vão, mas a verdade é que há coisas que não conseguimos controlar de todo. 

E as vossas fobias, quais são?
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Nota: O número de fobias parece não ter fim. No wikipédia podem consultar a lista de fobias, mas não se assustem. 
J

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

"a gaiola estava dentro deles"

Passarinho, Marcos Guilherme, Brasil

«Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora.» 
A Boneca de Kokoschaka, Afonso Cruz

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

"Oh Captain, my Captain"

Clube dos Poetas Mortos (1989) 

Robin Williams marcou uma geração e não dá como não lhe sentir a falta. 

Os papéis e os filmes foram muitos e alguns bem memoráveis tais como: as locuções vibrantes de Adrian Cronauer em Bom-dia, Vietnam, ou o eloquente John Keating em Clube dos Poetas Mortos, o analista em crise emocional Sean Maguire em O Bom Rebelde (que lhe valeu um óscar para melhor ator secundário), ou até o apaixonante Daniel Hillard e/ou a querida Mrs. Doubtfire em Papá para Sempre

À inteligência e simpatia no sorriso, brindava-nos com boas gargalhadas e agora ficou mais um vazio nesta chuva de estrelas, que nos vai entrando pelo écran adentro... Ontem o cinema ficou mais pobre.

 “A tragédia da vida não está na morte, 
mas naquilo que morre em nós enquanto estamos vivos.” 
Robin Williams (1951-2014)

domingo, 10 de Agosto de 2014

«a difusão do saber é um risco»

«Se me oferecessem a sabedoria com a condição de a guardar para mim sem a comunicar a ninguém, não a quereria.» 
Lúcio Aneu Séneca

O catalão Eduardo Roca foi o autor escolhido para a leitura de praia deste ano. Apesar de A Oficina dos Livros Proibidos não ser propriamente um livro de fácil transporte, pois tem 559 páginas, estava curiosa por o ler o quanto antes.

Os primeiros capítulos do romance não foram fáceis de captar-me a atenção. Tive até alguma dificuldade em ficar presa à história. Contudo, fui sempre insistindo e aos poucos e poucos o autor conseguiu que me embrenha-se na leitura até ao ponto de já não ser tão fácil de largar.

Com A Oficina dos Livros Proibidos viajamos até ao século XV. Entre capítulos alternados, o autor dá-nos a conhecer os diferentes personagens de Colónia, a cidade mais antiga do Império. Lorenz Block, o ourives, e a sua filha Erika, Nikolas Fischer, o copista, e o seu filho Alonso, Ilse ou Olga, a criada de Nikolas e apaixonada de Lorenz, Heller Overstolz, o burgomestre, Dieter von Morse, o arcebispo, são alguns dos personagens que vão mudar o rumo da História. 

A Europa continua empestada de superstições e velhas crenças e o saber ainda está ao alcance de alguns, mas um grupo de eruditos pretende mudar a forma como o povo tem acesso ao conhecimento. O círculo é bastante restrito e reúne-se na clandestinidade para não levantar suspeitas. São eles, o padre Martin Wahrheit, o livreiro  Johann Buchmann, o comerciante Yago e os professores Stan Weigand (especialista na ciência da vida), Leopold Trimm (especialista na anatomia do homem), Merrill Severin (mestre em ética), Ritter Griep (artista do pincel) e Ulbrecht Harde (um estudioso e apaixonado dos textos greco-latinos). 

Cedo Lorenz Block passa a fazer também ele parte deste grupo clandestino, pois terá um papel importante na difusão do saber ao criar uma prensa. Com esta invenção, Lorenz consegue imprimir vários exemplares em menor tempo que um copista. O ourives tem consciência que o perigo está à espreita, mas já não consegue parar o inevitável. Há um desejo maior. Um compromisso. O de difundir, através dos livros, o conhecimento. Não podia deixar de lutar, em memória dos seus amigos que perderam a vida em defesa deste bem comum.

Mais tarde esta aventura leva-lhe até Estrasburgo, onde conhece Johannes Gutenberg. Este personagem histórico confessa-lhe que pretende voltar à sua terra natal, Mogúncia, e assim fabricar a sua própria imprensa, pois «Ninguém pode deter o progresso. E menos ainda o cabeçudo Johannes Gutenberg!»

Como A Oficina dos Livros Proibidos tem um ambiente de época envolvente e o tema histórico é bastante atrativo, o leitor não desiste. Mesmo assim, Eduardo Roca peca por desenvolver devagar. No meu entender, são capítulos a mais para pouca ação.

Pinturas populares (últimos 30 dias)