quinta-feira, 29 de julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um livro

Late Night Reading, Eenuh, Bélgica

Um livro. Um livro que ao primeiro olhar a encanta ao ponto de andar consigo para todo o lado como se de um amuleto se tratasse! Ou então não! Nem lhe causa impressão. Fica perdido e esquecido numa estante poeirenta até as suas folhas brancas deixarem de o ser.

Um livro. Um livro que contem imensas palavras e que estas, juntas, constroem grandes estórias. É certo que ela sempre gostou de palavras. Talvez por isso nunca se imaginou a não gostar de livros. Para ela, as palavras emanam poder! Têm aquela sonoridade doce e acre. Carregam em si uma força interpretativa e sentida. Ela gosta de as soletrar len-ta-men-te para melhor entranhá-las na pele e na alma. Mas também gosta de as so-le-trar rapidamente até lhe soarem a estranho, até lhe soarem a novas palavras, até já não lhe quererem dizer nada daquilo que inicialmente diziam.

Um livro. Um livro que a transporta para desconcertantes realidades e sentimentos. Por entre as suas páginas, deixa-se perder até altas horas por ter receio de que se as deixar, elas podem fugir, podem já lá não estar quando de novo voltar a elas. E como seria depois? Como seria não as encontrar? A sua vida continuaria imutável ou deixaria de ser igual? Não, não pode correr esse risco! O melhor mesmo é criar os seus monstros e os seus heróis no negrume da noite. Submergir nas palavras e não regressar enquanto não chegar à última frase, à última palavra, ao último ponto final.

terça-feira, 20 de julho de 2010

"a gente devia só ouvir a gente"

«Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que crêem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.»
O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Levada do Furado

Percurso: Pedestre (PR 10 Levada do Furado)
Localização: Ribeiro Frio, Santana, Madeira
Distância aproximada: 11 km
Duração aproximada: 5h
Grau de dificuldade: Médio

A Levada do Furado tem início na Estrada Regional 303, em Ribeiro Frio, Santana (860 m de altitude) e termina no miradouro da Portela, no concelho de Machico.
É no Posto Florestal de Ribeiro Frio que damos início ao percurso. Podemos simplesmente usufruir do lugar para um piquenique ou para adquirir algumas recordações de artesanato. Aqui também podemos aproveitar para observar os viveiros de trutas Arco-íris (Oncorhynchus mykissWalbaum) do Posto Aquícola do Ribeiro Frio ou até mesmo perdermo-nos por entre algumas das plantas endémicas da Madeira. Mas o melhor mesmo é partir à descoberta de mais uma levada na Floresta Laurissilva!

Assim, nesta que é considerada uma das levadas mais antigas, podemos rodear-nos de verde, com pinceladas de outras cores, como a Orquídea da Serra (Dactylorhiza foliosa), o Isoplexis (Isoplexis sceptrum), as Estreleiras (Argyranthemum pinnatifidum), o Massaroco (Echium candicans), o Goivo da Serra (Erysimum bicolor) e entre outras. Entre tantas cores possíveis de contemplar, optei por partilhar apenas o amarelo das Doiradinhas ou também conhecidas por Bafo-de-boi (Ranunculus cortusifolius) e o branco das Estreleiras, que são lindíssimas!
A estas pinceladas de cor acompanha-nos o cantar do Bisbis (Regulus ignicapillus madeirensis) e do Tentilhão (Fringila coelebs), que desta vez não quiseram pousar para a fotografia!

Depois de percorrido o vale do Ribeiro Frio, encontramos a espectacular massa rochosa da Penha de Águia. Esta protege a oriente a baía do Faial, e a ocidente a Ponta dos Clérigos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O contador de histórias


Não sou um bom contador de histórias, porque enquanto acordado, as palavras não são escritas como as que passam frente aos meus olhos. Sempre gostei das palavras, é certo. Só que as palavras não me obedecem! Não se deixam usar a meu bel-prazer e fazem troça das minhas enormes mãos que insistem em escrevê-las.
Quando a noite chega torturam-me. Adoram a noite e em noites de luar chegam mesmo a enlouquecer-me! Deixam-me sem vontade própria e apoderam-se de todos os meus dedos da minha mão direita. Nesses meus momentos lúridos, vejo outras palavras que se enterram em mim e deixo de ser quem sou. Já não sou eu quem as escreve, mas sim a minha mão, em obediência a elas. Expele palavras esquizofrénicas e exprime os meus sonhos não sonhados.
Enquanto contador de histórias noctívago e entorpecido escrevo imensas palavras, vezes sem conta em pedaços de papel, que deixo esquecidos pelos recantos desta casa, que já nada me diz… Das vezes que as escrevo nada de significativo encerro nelas.
Cedo, no meu despertar, nada reconheço como sendo as minhas palavras!
Nos meus longos dias levo uma vida solitária de mau contador de histórias, porque tento aprisionar as palavras sombrias que me perseguem. Só que elas, as palavras, martelam nos meus pensamentos dia após dia. E mesmo exaustos, os meus pensamentos não se deixam adormecer, porque elas, as palavras, arrastam-mos para o abismo. Por vezes tento sufocá-las, mas elas agitam-se e em louco atropelo insistem em sair. E quando a noite chega, já cansado, acabo por as deixar escapar. Deixo-as partir para outras folhas vazias.
Cedo, no meu despertar, procuro encontrar em cada palavra escrita o meu eu de contador de histórias, enquanto acordado.

sábado, 10 de julho de 2010

É hoje... :) "Just Breathe"



Com lotação esgotada, o Alive 2010 esteve ao rubro com 45 mil pessoas. Os Pearl Jam eram os cabeça de cartaz e sem dúvida os mais aguardados! E eu que pela primeira vez iria poder vê-los ao vivo não estava em mim! Há momentos que são mesmo únicos e memoráveis e este ficará com certeza naquele cantinho tão especial do sentir.
O povo entrou em delírio assim que Eddie Vedder pisou o palco. O concerto fechava a tournée europeia e pelas palavras de Eddie seria também o último, pelo menos por algum tempo. O público não gostou, mas Eddie disse que isso seria bom, pois era hora de divertirmo-nos agora já que não sabíamos quando é que podíamos voltar a repetir este momento juntos.
O concerto durou para lá das duas horas e o público entusiasta estava incansável e não queria dar o concerto por terminado! Eram os braços no ar, eram as palmas, era o entoar das vozes ao som de cada música, eram as máquinas fotográficas para registar cada momento, eram os ouvidos muito atentos para escutar o português de Eddie. "Português é muito difícil" disse Eddie recorrendo à sua cábula.
Foram muitas as palavras que trocou com o público em português e estas eram sentidas em cada palavra. Eddie não se cansou de elogiar o público português: "São o público que melhor canta no mundo". Chegando até a cantar uma música cujo refrão era "Portugal, Portugal". Era mais um ponto alto nas emoções, que continuavam à flor da pele, tanto no público, como no próprio Eddie Vedder.
Eddie despediu-se dos seus fãs de bandeira portuguesa às costas, garrafa de vinho na mão e cigarro entre os lábios. E com a saída dos Pearl Jam do palco, a grande maioria do público também desapareceu.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

"uma vida indolente e vadia"

Os Irmãos Tanner, de Robert WalserOs Irmãos Tanner, de Robert Walser é um livro de deambulações. Toda a história se centra em Simon Tanner, um jovem que foge das convenções impostas pela sociedade e leva uma vida indolente e vadia. Simon não consegue permanecer em nenhum emprego durante muitos dias, percorre inúmeras cidades e não se fixa em nenhuma delas, pouco ou nada se relaciona com os seus irmãos, mas mesmo assim é através dele que ficamos a conhecê-los. Klaus, o mais velho e ponderado, que exerce uma posição importante no mundo académico; Kasper, o artista que pinta quadros e com quem gostaria de viver; Hedwig, a professora solitária, que vive algures numa aldeia e Emil, o ideal de um homem jovem e bonito, mas que conduz o seu destino à infelicidade e ao manicómio.
No decorrer dos vários capítulos, Simon ora vagueia em longos monólogos, ora troca ideias, muitas das vezes contraditórias, com alguns dos seus irmãos e com as diferentes pessoas que vão entrando e saindo da sua vida. Neles vai deixando os seus estados de alma, as suas divagações sobre o passar do tempo, da vida, da natureza, da religião, da sociedade e neles vai prolongando a sua forma inútil de viver.
No entanto, talvez Simon seja apenas um sonhador livre e incompreendido por apenas querer vender a sua liberdade durante um certo tempo, ou seja, sempre que a necessidade o exige. Assim, é respeitado apenas por ele próprio, a busca do “ter estatuto” não lhe diz nada e quer continuar a ser uma pessoa, pois gosta do «perigo, do abismo, do incerto, do incontrolável».

«Eu, sou eu quem ofendeu o mundo. O mundo está diante de mim como uma mãe zangada e magoada: um rosto milagroso que me enlouquece, o rosto do mundo materno que exige expiação! Pago por tudo o que negligenciei, por tudo o que perdi ao jogo, por tudo o que perdi a sonhar, por tudo o que falhei e por tudo o que despedacei. Saberei reconciliar a ofendida, e depois, numa hora bonita e familiar da noite, contarei aos meus irmãos qual o meu segredo para andar de cabeça tão erguida. Pode levar anos, mas uma tarefa é para mim tanto mais fascinante quanto mais prolongada e difícil for a tensão das forças por ela exigida.»

Robert Walser, também ele um errante, pelas deambulações vagarosas de Simon Tanner, confronta-nos com uma série de questões que vamos assimilando sem pretensões de julgar o personagem principal.
Uma obra que prima por ter imensos parágrafos em que um leitor, como eu, não resiste a sublinhar para voltar a eles num outro dia ou até mesmo partilhá-los.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dia Mundial das Bibliotecas

Biblioteca Municipal José Saramago, Beja

«Uma biblioteca é um labirinto. Não é a primeira vez que me perco numa. Eu e o meu pai temos isso em comum. Penso que foi isso que lhe aconteceu. Ficou perdido no meio das letras, dos títulos, perdido no meio de todas as histórias que lhe habitavam a cabeça. Porque nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias. O meu pai, tenho a certeza, perdeu-se nesse mundo e agora ninguém lhe consegue interromper a leitura.»
Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz

Pinturas populares (últimos 30 dias)