sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"a morte assusta pela descontinuidade"

Campa do escritor Oscar Wilde
Cemitério Père-Lachaise, Paris, França

«É preciso integrar a morte na nossa cultura de vida. Vivemos de olhos fechados, como se a morte não existisse, em vez de caminharmos abertamente para ela que está pacientemente à nossa espera, à espera da nossa aceitação. Porque a outra dimensão está em nós. Trazemo-la connosco desde o nascimento e é preciso falar do sofrimento, do medo de morrer. São conversas que se evitam como se evitam os temas vergonhosos. E essa recusa envenena toda a nossa existência.
E sabes que mais? Somos nós que construímos energeticamente o nosso futuro no plano físico e não físico. Iremos encontrar o que tivermos construído. E o nosso céu será o que formos capazes de projectar em vida: se não projectares nada, terás nada; se projectares a luz, terás a luz.
Não será mais interessante encarar a morte nesta perspectiva do que ter meramente uma visão de fim, de perda, de vazio?»
O Sétimo Véu, de Rosa Lobato de Faria

6 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Fantástico texto!
Acho que nós, ocidentais, neste aspecto temos muito a aprender com os orientais. Ao longo de séculos, a nossa cultura judaico-cristã cultivou o medo da morte. Sem esse medo a religião perderia grande parte do seu poder sobre as pessoas. Ao mesmo tempo que anunciavam a morte como uma libertação, aterrorizavam as pessoas com o medo do inferno, numa contradição incrível. Por um lado apresentavam a morte como uma saída para a paz eterna mas por outro lado faziam crer às pessoas que nunca estavam preparadas para ela porque o Paraíso exigia uma alma pura.
A somar a este factor veio depois um outro: a invenção do capitalismo. A vida tornou-se uma luta incessante pelo sucesso material. E a morte tornou-se o último e mais forte obstáculo ao triunfo do ser humano. O ser humano tornou-se desmedidamente ambicioso. A morte tornou-se o fantasma terrível, o inimigo invencível do sucesso material.
Agora, para nos libertarmos deste medo da morte teremos de nos libertar destes padrões. A tarefa não é fácil. É por isso que as palavras de Rosa Lobato Faria são tão bonitas: mostram-nos que é possível e é preciso quebrar esses padrões.
(desculpa o testamento mas deu-me para a filosofia) :)
beijinhos

ematejoca disse...

Para mim a morte é o fim, é a perda, é o vazio.
A 13 de Julho deste ano perdi um familiar muito querido e continuo com uma profunda depressão.
Cinco dias depois a nossa família cresceu com uma linda menina, no entanto, a dor de perder o outro membro da família é muito grande.

Visitei há tempos esse cemitério em Paris, visitando também a campa do Oscar Wilde entre outras.

Gosto muito de passear pelos cemitérios daqui, que são como parques, com muito arvoredo, muito bem tratados e bonitos.

Nunca li nada da Rosa Lobato de Faria, mas ainda hei-de ler.

tonsdeazul disse...

Não desculpo este teu testamento, Manuel! Pelo simples facto que gostei muito destas tuas palavras. :) Estão muito certas.
E perante esta luta funesta de correr contra a morte, estas palavras de Rosa Lobato de Faria vêm suavizar e mostrar que sim é possível quebrar ideias pré-concebidas, como bem referes!


Ematejoca lamento a tua perda. Bem sei que não é fácil aceitar o vazio que fica em nós. Todos nós de uma maneira ou de outra já sentimos a morte.
Quando o meu avô faleceu, há dez anos, fiquei com a morte entranhada em mim e descobri nesse dia que crescer era também ver aqueles que amamos partir. Depois descobri o tempo.
Pois os cemitérios daqui deviam também de ser assim, mais bonitos e com menos ostentação.
Apesar de a minha incursão pela escrita da autora ainda ser recente, aconselho-te vivamente a descoberta das suas palavras.
Um forte abraço

N. Martins disse...

São bonitas as palavras da Rosa Lobato Faria, mas para mim a morte é mesmo uma visão de fim, de perda e de vazio. Sou capaz de aprender a lidar com a minha morte dessa forma, mas com a dos outros é-me impossível. A realidade é que a morte de alguém que amamos, mesmo que essa morte signifique o fim do sofrimento para essa pessoa, deixa-nos uma saudade e uma dor que não têm tamanho e que o tempo apenas consegue tornar mais doce. O que aprendemos é a controlar a emoção quando falamos ou pensamos nessa pessoa, mas o tamanho da dor é igual... Gostava sinceramente de estar errada e de voltar a encontrá-lo numa outra vida, mas a verdade é que se me dessem a escolher, trocava a eternidade pela possibilidade de não o ter perdido tão cedo. :)
Admiro quem consegue passar por estas experiências encarando-as de uma forma mais positiva e esperançosa. Eu não consigo. É provavelmente a única parte da minha vida sobre a qual não consigo ser positiva. :)
Bem, é melhor parar com a psicanálise, antes que comece para aqui a chorar baba e ranho! :p

Destante disse...

Parece-me que a "intelectualidade" portuguesa ainda não deu a Rosa Lobato Faria o lugar que merece na cultura portuguesa.
Este texto é magnífico.

tonsdeazul disse...

A intenção das citações que transcrevo sempre foi colocar-vos a falar (neste caso a escrever), pois são as que mexeram comigo cá dentro.
Parece que com este ma-ra-vi-lho-so texto de Rosa Lobato de Faria, finalmente consegui que transbordassem em palavras, em sentires, N. Martins! Independentemente destas chegarem com lágrimas, baba e ranho é bom saber que certas palavras também vos causam borboletas no estômago! :p


Talvez, tal como eu há uns meses, ainda não a tenham descoberto com olhos de ver, Destante.
Este livro é uma tentação para o lápis! :)

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