sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"a dois passos da morte, ainda sou hipócrita... Oh!, século XIX!"

A Paula sabe da minha preguiça em escrever opiniões literárias logo após a leitura das obras, mas pediu-me esta: O Vermelho e o Negro, de Stendhal e não tive como escapar. :p

O Vermelho e o Negro, baseado em factos reais (um jovem seminarista é julgado e condenado à morte por assassinar a sua amante), retrata a sociedade francesa do século XIX, na época da Restauração, pós-napoleónica. Com base neste caso real, Stendhal deu corpo a este magistral romance, onde Julien Sorel, filho de um carpinteiro de Verrières (cidade fictícia), será o nosso protagonista. Este, um entusiasta de Napoleão, ambiciona por uma vida de glória. A ambição, o oportunismo e a hipocrisia estão vincados na sua personalidade e acredita que só conseguirá atingir a tão almejada glória através da religião, ingressando na vida eclesiástica ou seguindo uma carreira militar.
A sua ambição excessiva leva-lhe ao contacto com a burguesia provinciana na primeira parte e já na segunda parte da obra permite-lhe conviver com a aristocracia parisiense.

Assim, na primeira parte Julien Sorel, já um jovem acólito, é convidado para ser preceptor dos filhos da senhora de Rênal. Este recita de cor algumas passagens da Bíblia e logo nos primeiros dias causa espanto e admiração nas pessoas importantes que frequentavam a casa do senhor de Rênal.
«A generosidade, a nobreza de alma, a humanidade» parecia aos olhos da Senhora de Rênal que só existiam no jovem teólogo. E assim com a sua persistência, como se de um dever a cumprir se tratasse, o jovem Sorel decide conquistar o coração ingénuo da senhora de Rênal. Esta não tinha experiência alguma da vida e facilmente se deixou enredar num caso de adultério. Mas o que também inicialmente era uma estratégia de Sorel, acaba por se transformar em amor. Contudo, esta relação acabará por ser revelada por Elisa, a camareira da casa que estava também ela apaixonada por Sorel e que por despeito revela a ligação dos dois amantes.
Após esta revelação numa carta anónima, Sorel vê-se obrigado a abandonar a senhora de Rênal e Verrières e ingressa no seminário em Besançon. Aqui cria inimizades, mas consegue a protecção do abade Pirard, que o recomenda como secretário ao Marquês de La Mole. E é com a saída de Julien Sorel do seminário que tem início a segunda parte da obra.

Julien parte então para Paris e vai viver com a família de La Mole, mas mesmo vivendo e convivendo com os ricos não deixa de se sentir um pobre, pois os amigos do senhor de La Mole não o deixam esquecer a sua origem plebeia.
Entretanto Sorel descobre que a filha do senhor de La Mole está apaixonada por si. Orgulhoso por ter ultrapassado os pretendentes aristocráticos de Matilde (de Caylus, de Croisenois, de Luz), este novamente na sua ambição desmedida só decide parar quando a conseguir ter a seus pés. Já Matilde apesar de se sentir apaixonada por Sorel, sente repugnância por este sentimento para com um homem da sua classe.

«Os remorsos da virtude e do orgulho tornavam-na naquela manhã igualmente infeliz; de certa forma, estava aniquilada pela horrível ideia de ter dado direitos sobre si a um sacerdotezinho filho de um camponês.»

Assim, ora seduzia, ora rejeitava Sorel. Cansado de ser rejeitado por duas vezes pela sua amada, Sorel decide seguir os conselhos do príncipe Korasov e causar ciúmes em Matilde, atraindo para si a atenção da senhora Fervaques.
Só que este amor entre Sorel e Matilde estava predestinado a acabar em tragédia. E assim depois de algumas atribulações, o jovem é preso e condenado à morte por premeditar e tentar assassinar a sua antiga amante, a senhora de Rênal. Já Matilde, apesar de ser rejeitada, nos últimos dias por Sorel, não desiste das suas diligências para conseguir salvar o seu amado da guilhotina.

Considero este clássico extremamente psicológico. Desfeitos os ideais napoleónicos, resta uma sociedade burguesa de contradições sociais, religiosas e políticas. E é neste cenário tenso de hipocrisia que surge o amor. Stendhal espelha os conflitos interiores dos três personagens principais: Sorel, senhora de Rênal e menina de La Mole, que estão presos às convenções da época. Contudo, não creio que Sorel tenha sentido o verdadeiro amor. Talvez nos últimos dias, nas vésperas da sua morte, realmente tenha amado a senhora de Rênal, mas acredito mais que tenha sido por ver os seus dias a chegar ao fim.
O génio literário de Stendhal no seu melhor!

9 comentários:

Paula disse...

Olá Tonsdeazul :)
Já leste a obra :) que bom que partilhaste a tua opinião (uma pena não partilhares todas), ainda bem que te pedi. Tenho este livro na estante como sabes há "séculos" e sempre passo por ele e digo: "ainda não é desta", mas agora é mesmo. Logo a seguir à leitura de "Nossa Senhora de Paris" de Victor Hugo é esta leitura que vou fazer.
Gostei bastante da tua apreciação,adoro romances psicológico e palpita-me que esta leitura, vítima de adiamantos, vai ser muito boa :)
Mais uma vez obrigada :)
Beijinhos

tonsdeazul disse...

Terminei hoje, Paula! E tal como prometido, lá tive de deixar a preguiça de lado (^.^) para poder colocar também hoje a minha opinião. ;) Espero que quando partires para esta leitura desfrutes, tanto dela como eu!
Esse "uma pena não partilhares todas" é sem dúvida uma pequena provocação a este meu pecado capital! Eheh Mas olha que este mês até foi bem recheado, não te podes queixar muito! :p
Eu é que tenho de agradecer por me pores a trabalhar! Eheh Beijocas

Silvana Nunes .'. disse...

Ainda não li. Vou procurar.
Gostei imensamente do seu espaço.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... e MEU CADERNO DE POESIAS, desejam um bom final de semana para você.
Saudações Educacionais !

Paula disse...

Pois,foi sim uma provocação :P
Tem um óptimo fim de semana.

Teté disse...

Nunca li o romance, mas tinha ideia do seu enredo.

Segundo creio, o próprio título tem a ver com os dois tipos de clero existente na época e respectivas cores de vestuário... :)

Beijinhos e continuação de boas leituras!

Manuel Cardoso disse...

Eu tenho uma quase-vergonha de nunca ter lido Stendhal.
Ainda por cima é dele a frase-lema que tenho no topo do meu blogue:
"Os Homens só se compreendem uns aos outros na medida em que os animam as mesmas paixões."
Mas vou ler! Ai vou, vou!

tonsdeazul disse...

Silvana Nunes, olá
Então é uma boa forma de conhecer Stendhal. Uma boa semana!


Eu sabia que não escapava dela, Paula! Ando a tentar melhorar. Já comecei com terapia. LOL
Já que o fim-de-semana foi fraquinho de leitura para ambas, então que a semana corra melhor! :)


Desconhecia o enredo, Teté. Mas logo na sinopse fiquei a saber que supostamente ia acabar em tragédia, uma vez que referia que era baseado num caso real.
Também li qualquer coisa sobre o título do livro em que estava associado às vestes de Sorel, pelo menos o preto.


Não creio que seja caso para tanto, Manuel! Este também é o primeiro que li do autor e acredito que seja o melhor dele mesmo. Daí a minha interjeição final! ;)
Mas claro considero que é um autor que não podes deixar de ler. Ainda para mais sendo ele a inspiração do teu blogue. :)

Catherine disse...

a verdade que o tenho nas parteleiras de minha casa mas nunca me seduziu, talvez um dia destes chegue a sua vez! ;)

Catherine,

http://chovemlivros.blogspot.com/

tonsdeazul disse...

Também o tive durante muitos anos nas minhas prateleira, Catherine! Quando foram para a prateleira de cima finalmente me decidi a lê-lo! :)

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