terça-feira, 10 de agosto de 2010

«Vieste como um barco carregado de vento»

Praia de S. Rafael, Albufeira. Fotografia de BB (O.o)

«Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.»

in O Canto do Vento nos Ciprestes, de Maria do Rosário Pedreira

2 comentários:

Teté disse...

Gostei do poema e da fotografia! Tenho uma foto quase igual tirada estas férias, numa prainha ao lado de São Rafael - Arrifes! Daí a semelhança, embora a minha não tenha tons tão fortes... :)

Beijocas!

tonsdeazul disse...

Vês como só selecciono poemas que gostas! ;) Ainda irei conseguir que gostes de poesia! :)
Beijinhos

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