Iniciei a leitura de O Homem Duplicado, de José Saramago com alguma expectativa, mas quando terminei senti um certo desencanto. Pela primeira vez um livro do autor soube-me a pouco! A história ficou aquém daquilo que esperava encontrar.
O Homem Duplicado conta a história de um solitário professor de História. Tertuliano Máximo Afonso é o nome do nosso personagem principal. Tudo se desenvolve no dia em que Tertuliano aluga o filme, Quem Porfia Mata Caça, que lhe tinha sido recomendado pelo seu colega de Matemática. Um filme que sendo de humor, apenas lhe causa alguns arranhares no sorriso e que terminaria sem quaisquer factores de causa e efeito se não fosse Tertuliano Máximo Afonso ter reparado num actor secundaríssimo, que apenas intervém em algumas sequências do filme. E que tinha este empregado de recepção? Pois era simplesmente a cópia de Tertuliano Máximo Afonso!
«O que mais me confunde, pensava trabalhosamente, não é tanto o facto de este tipo se parecer comigo, ser uma cópia minha, digamos, um duplicado, casos assim não são infrequentes, temos os gémeos, temos os sósias, as espécies repetem-se, o ser humano repete-se, é a cabeça, é o tronco, são os braços, são as pernas, […], o que me confunde não é tanto isso como eu saber que há cinco anos fui igual ao que ele era nessa altura, até bigode usávamos, e mais ainda a possibilidade, que digo eu, a probabilidade de que passados cinco anos, isto é, hoje, agora mesmo, a esta hora da madrugada, a igualdade se mantenha, como se uma mudança em mim tivesse de ocasionar a mesma mudança nele, ou, pior ainda, que um não mude porque o outro mudou, mas por ser simultânea a mudança, isto é que seria de dar com a cabeça nas paredes, [...]»
A partir daqui Tertuliano Máximo Afonso não mais consegue ter um sono tranquilo. A sua pessoa vive na ansiedade de descobrir tudo sobre o outro. Aluga mais filmes da mesma produtora para procurar no genérico do filme, através do método de eliminação, o nome do actor que é a sua cópia. E quando consegue finalmente o nome decide escrever para a produtora para conseguir a morada. Só que para isso precisa de mentir à sua namorada, (que não é bem sua namorada, é assim uma coisa) Maria da Paz, pois ele decide fazer-se passar por uma admiradora do actor Daniel Santa-Clara, que é o pseudónimo de António Claro.
Mas depois não lhe chega saber que vivem na mesma cidade, mas em bairros diferentes! Quer saber mais, muito mais! Então toma a decisão de telefonar para a casa de António Claro. Na primeira vez quem lhe atende é a mulher do actor, Helena, que o confunde com o seu marido. Descobre então que para além de serem completamente iguais fisicamente, também têm a mesma voz. Na segunda vez que telefona ouve a sua própria voz do outro lado.
Vão acontecendo uma série de peripécias até que António Claro, resoluto em não querer saber da existência de uma cópia sua, decide finalmente marcar um encontro com Tertuliano Máximo Afonso. Assim poderão olhar-se e examinar-se mutuamente. Só claro está que o encontro só poderia causar mais intranquilidade nas suas cabecinhas. Quem seria a cópia de quem? Qual dos dois nasceria primeiro? Não vos digo terão de descobrir.
Após este encontro, António Claro tem uma ideia, daquelas luminosas, e decide usar a identidade de Tertuliano Máximo Afonso. Este cede à chantagem e permite que António Claro se faça passar por ele para passar uma noite com a sua namorada Maria da Paz (já é namorada, irá até viver com ela). Só que António Claro deixa os seus pertences na casa de Tertuliano Máximo Afonso e este, que não é parvo nenhum, decide vingar-se e vai a casa de António Claro dormir com Helena. Ora assim acaba tudo em bem, sem ressentimentos. Mas o destino por vezes prega-nos partidas e tragédias acontecem. Pois é... Quem será que no final perdeu a sua identidade? O professor de História, Tertuliano Máximo Afonso ou António Claro, o actor em ascensão? Assim, quando a história começa finalmente a ganhar pernas e forma para assumir-se, acaba. A usurpação de identidade e a ausência de liberdade individual, que podiam ser o motor de arranque "morrem na praia".
«Um dos seus mais belos romances», como é referido na badana da contracapa? Não. Um romance psicológico? Não, se o comparar com o Duplo, de Dostoiévski. Sim tive de o ler, porque tinha de comparar o que não há para comparar, pois mesmo os autores sendo “duplos” na genialidade, são diferentes em tudo o resto!
Para terminar não posso dizer que a história esteja mal contada, que não seja entusiasmante até ao final, que Saramago não nos brinde com a sua especial e tão característica forma de nos agarrar às palavras, que não levante as eternas questões de identidade ou de falta dela, que não tenha gostado das conversas entre Tertuliano Máximo Afonso e o seu senso comum, que não tenha encontrado parecenças com um outro livro do autor (Todos os Nomes, que gostei bastante), que este livro não mereça ser lido, mas o facto é que também eu, tal como o Tertuliano Máximo Afonso, queria mais!