terça-feira, 14 de setembro de 2010

"toda a gente já sabia que aquilo não acabaria em bem"

A colecção Autores Lusófonos, da revista Visão tem-me proporcionado bons momentos de leitura. Até ao momento as duas histórias que me souberam a pouco foram as de dois autores que já conhecia, Jorge Amado (O País do Carnaval) e Chico Buarque (Estorvo). Talvez por as expectativas serem maiores, as estórias tenham ficado aquém daquilo que esperava encontrar.
Já os autores africanos, como Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, Agualusa e Germano Almeida foram uma agradável surpresa. Com uma musicalidade na escrita e repleta de sensações cromáticas a tocar a doce poesia, conseguem levar-me a viajar para aquelas terras quentes e enraizadas de estórias.

Desconhecia a escrita de todos eles e como o último que li foi Germano Almeida é de Os Dois Irmãos, que vou escrever.
Logo na nota introdutória do autor ficámos a saber do que trata a história. Esta passa-se na ilha de Santiago, em Cabo Verde e gira em torno de André Pascoal. André, irmão de João, é o personagem central a quem o autor deve este livro, onde «a realidade se confunde com a ficção». Este encontra-se sentado no banco dos réus acusado de fratricídio. Agora só falta saber as razões que levaram André a matar o seu irmão João. E é isso que vamos descobrindo ao longo dos capítulos, com o depoimento do réu e das restantes testemunhas chamadas a depor.
Assim durante o processo de julgamento ficamos a saber que André, um jovem alegre e brincalhão, é casado com Maria Joana e encontrava-se ausente da sua terra natal há três anos, mas que decide deixar Lisboa e voltar às origens, após receber uma carta de seu pai a informar que tinha colocado Maria Joana fora de casa. O pai não alega os motivos, mas pede ao filho que regresse.
Ao chegar a casa, André fica a saber pela boca de seu pai o motivo de toda a vergonha, mas mesmo assim não acredita. Decide passar os dias no convívio com a sua mulher e o seu irmão, até que as palavras de seu pai não lhe deixam de martelar na cabeça e também começa a notar diferenças de atitude na povoação. As portas e janelas de sua casa estão fechadas para o convívio com os vizinhos, os familiares, como o tio Doménico, ignoram-lhe e os vizinhos passam por ele de cabeça baixa, fingindo que não o vêem. A comunidade reagia entre pequenas gargalhadas e murmúrios perante a sua atitude passiva para com o seu irmão João. Como se fosse melhor então que ele tivesse ficado onde estava, pois escusava de «vir envergonhar ainda mais o seu velho».

21 dias se passam e após 21 dias André mata João. E a grande questão que confunde o juiz é o porquê de 21 dias depois André decidir matar o irmão? Não deveria «o réu, como homem que se mostra não destituído de alguma instrução, que já esteve no estrangeiro, que já viu televisão e frequentou cinemas e leu jornais e talvez mesmo outros livros, [ter] o especial dever de a todo o custo resistir à pressão psicológica que sentiu que se procurava exercer sobre ele e, por actos de diferente natureza, mostrar à sua comunidade a desumanidade que ela queria que ele praticasse[?]»

Germano Almeida é maravilhoso no narrar desta história. Assume-se como interveniente na história e dá-nos a conhecer as relações complexas da justiça e dos seus agentes, que entre uma audiência e outra, conviviam ora a beber um whisky descontraidamente para refrescar, ora a empanturrarem-se com um churrasco. Muitas destas situações expostas pelo autor chegam a tocar no ridículo e até a deslocação do julgamento da cidade para a aldeia para que esta tivesse uma melhor proximidade com a comunidade é uma comédia abrasadora.

Uma história muito bem contada que não deixa de nos colocar certas questões. Será de todo importante e necessário conhecer os costumes, as culturas, os diferentes valores sociais e as normas da sociedade em que se vive para melhor julgar e determinar uma sentença? Como pode um colectivo exercer pressão sobre um indivíduo, levando-o à execução de um crime e antes de a justiça julgar considerá-lo de imediato inocente?

4 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Muito bem, tons de azul! Concordo em absloluto com o que escreves sobre a literatura lusófona e sobre esta colecção. Acrescento que também a colecção Biis, da Leya, tem publicado excelentes livros destes autores a preços magníficos.
Vou ler também este livro um dia destes. Não conhecia Germano Almeida.
Sem dúvida, estou a tornar-me fanático pela literatura africana. Que maravilha!

Teté disse...

Bom, já tinha ouvido falar deste escritor, mas nunca li nada dele, Nem de Ondjaki!

Pepetela é o meu preferido dos outros: muito me ri com os dois livros de Jaime Bunda! Agualusa é um pouco mais complicado, de Mia Couto só li um romance, gostei da escrita, mas a história em si, nem por isso.

Quanto a este Germano Almeida e a este livro, vou guardar como dica para a lista de leituras a fazer... :)

Beijocas!

N. Martins disse...

Gostei muito desta tua crítica. Já tinha lido uma acerca deste livro menos boa, mas a tua fez-me querer ler o livro. Não o comprei com a revista visão... Paciência, mais um para a lista! :)

mixtu disse...

muito interessante..
julgo que temos que ter em conta o local, os ditos, os costumes para aplicar uma sentença ou acordão...

boa leitura

abrazo serrano

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