quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"É virtude nos ministros o afligir e crime nos presos o gemer"

A autora Ana Cristina Silva chamou-me a atenção há uns meses quando alguns blogues ofereciam, juntamente com a Editorial Presença, o livro Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'tamid. Na altura fiquei curiosa e até cheguei a participar num dos passatempos, mas não tive sorte. Entretanto procurei mais informação sobre a autora e descobri um outro livro entre as suas obras. As Fogueiras da Inquisição. E esse sim suscitou-me muito mais curiosidade ao ponto de o adquirir!

As Fogueiras da Inquisição é um romance histórico que tem como pano de fundo o Portugal do século XVI. Na época reinava D. João III e a pedido deste é instituída em 1536 a Inquisição em Portugal. Mas através das memórias de Sara de Leão, a protagonista desta saga familiar, a história vai um pouco mais atrás. Regressamos então ao reinado de el-rei D. Manuel I e ficamos a conhecer a história da avó de Sara, Ester Abecanar, a partir dos seus quatro anos de idade. Esta vivia na Judiaria de Lisboa com o seu pai Samuel Abecanar, que é físico e a sua ama Rana. Só que com a publicação do édito de expulsão dos judeus, Ester é obrigada a baptizar-se de Ester Baltasar. Nasceram assim os cristãos-novos. Mas os tempos não deixaram de ser difíceis e conturbados. Em Espanha, de onde tinham fugido, já estava estabelecida a Inquisição e os sefarditas e cristãos-novos continuavam a viver no medo e a não se sentir totalmente seguros.

É com Sara de Leão, que narra a sua história no presente, que a história começa. Esta encontra-se presa num calabouço em Évora. Para além de recordar a sua avó, os seus pais e o seu marido cristão, D. João de Leão, que já faleceram, Sara refugia-se também nos ensinamentos e na doutrina do seu povo. Sara sente uma enorme ânsia de se agarrar à vida mas, apenas aguarda pela morte na fogueira. Foi após quatro meses da morte do seu marido, que Sara foi presa pelo Santo Ofício, acusada, pela prima do seu marido, Isabel, de práticas judaizantes.

Já na segunda parte do livro o inquisidor também ganha protagonismo. Ficámos então a conhecer os seus pensamentos, os seus procedimentos e os seus padecimentos:
«Esta tarde ordenei que amarrassem as mãos aos presos que foram condenados à fogueira. Deste modo ficam impedidos de tentar o suicídio, um fim que muito me horrorizaria, visto estarem sob a minha responsabilidade. Seria o pior dos crimes se perpetrassem violência contra a própria pessoa.»

Não vou contar muito mais sobre esta história, apesar de tão pouco ter contado. Mas não quero estragar a vossa vontade em descobrir esta singular saga familiar, que coloca personagens ficcionadas ao lado de personagens históricas, como por exemplo o historiador Damião de Góis e Beatriz Luna, esta última conhecida na Europa como «a Senhora».
Refiro somente que o livro tem imensos parágrafos apetecíveis para o lápis. Esta citação que transcrevi pertence aos pensamentos do Inquisidor D. João de Bragança e foi uma das que de alguma forma mais me marcou ironicamente.
Ana Cristina Silva é uma autora a seguir!

13 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Mais uma boa proposta, este livro. As páginas mais negras da nossa História são as mais apetecíveis. Será o nosso lado sádico?
Quanto à citação que destacas, é um pensamento que eu compreendo muito bem. É que sou professor e aprendi isso com o Ministério da Educação...

tonsdeazul disse...

Começo a acreditar que sim, Manuel Cardoso! A verdade é que as partes mais negras da História são as que mais me fascinam explorar!
Tenho consciência que nos dias de hoje não é nada fácil exercer a profissão de docente... Ainda mais com esta constante instabilidade na educação e com miúdos cada vez mais "selvagens" e inconsequentes e para ajudar à festa os maravilhosos pais irresponsáveis!

Teté disse...

Fiquei curiosa: um livro sobre alguns dos muitos crimes da Inquisição parece-me deveras interessante. Mais a mais, até me ofereceram o livro, só que ainda não tive tempo de o ler... :)

Beijocas e obrigada por mais esta dica! :D

tonsdeazul disse...

Acho que vais gostar, Teté! Ainda mais se o tens por casa, melhor ainda! :)
Beijinho

N. Martins disse...

Mais um para a lista... :)

tonsdeazul disse...

Vou começar a sentir o peso nos ombros, N. Martins! ;) Mas sim também creio que vais gostar deste. Aborda a parte negra da nossa História e está bem interessante!

Jojo disse...

Já te tinha dito que estava ansiosíssima por esta crítica.Gostei muito da escrita desta autora quando li o Crónica. Fabulosa!
Este Fogueiras vai direitinho para a minha wishlist!

tonsdeazul disse...

Jojo e o da Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'tamid está na minha! ;) E ela ainda tem um outro que também me causou curiosidade, A Dama Negra da Ilha dos Escravos, que se passa no século XVI.

Paula disse...

Também fiz esta leitura durante esta semana :) coincidência né? Sorri quando vi que tinhas o comentário aqui e ainda bem que o partilhaste :P (pronto não digo mais nada).
É uma leitura fascinante, uma leitura que não deixa de entristecer e de criar um certo sentimento de revolta por aqueles que abusaram do seu poder!!
Tenho curiosidade em ler mais sobre o tema em questão assim como sobre os Judeus.
Não sei se reparaste, mas no fim do livro tem a bibliografia usada pela autora e tem livros interessantes da Europa América e da Presença. Vou colocá-los na wish list :)
Beijinhos

tonsdeazul disse...

Realmente é engraçada esta coincidência, Paula! E ando a esforçar-me para dar a conhecer mais as minhas opiniões literárias. Mesmo elas chegando tarde e a más horas, como se costuma dizer! ;)
Eu tenho um outro sobre este tema também da Ed. Presença na minha lista de compras, "A Inquisição - O Reino do Medo", de Toby Green. E sim vi a bibliografia final. Sempre leio o livro em todos os pormenores, mesmo os mais pequenos! :)
O Holocausto também outro tema que sempre leio. Tenho imenso livros sobre essa parte da História.
Beijinhos e se leste livro então também haverá opinião lá pelo Viajar pela Leitura! Fico à espera. ;)

Guerreiro, o devorador de livros disse...

Olá!
Não sou muito dado a livros históricos, embora tenha lido "A Papisa Joana" e "O Fisico", e ter adorado ambos os livros! Contudo, a tua opinião sobre este livro da Ana Cristina Silva suscitou-me curiosidade, principalmente se a história gira em torno desta protagonista Sara de Leão... Bem, apesar de o titulo ser terrivelmente medonho e pesado, talvez devesse experimentar este livro... ;-)
Bom fim-de-semana e boas leituras!

tonsdeazul disse...

Olá Guerreiro, o devorador de livros!
Li esses dois que referes este ano e são realmente bons! Este considero-o menor, mas não lhe tiro o seu fascínio, ainda para mais que retrata uma parte da nossa História! É uma questão de experimentares! ;)
Um Domingo, com muita leitura!

cris disse...

coloquei um link deste teu comentário no meu blog, espero que não te importes...
http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.com
Boas leituras!

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