sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"os homens nunca se contentam"

Ando sempre à procura de descobrir novos autores. Não novos autores de serem novos na arte de escrever, mas sim novos para mim, que nunca lhes desvendei as suas formas de contar estórias! E este ano então a maioria das minhas leituras têm sido uma descoberta!

As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira foi a última descoberta lida. Esta obra é uma aventura pegada e como a Isabel Maia bem referiu faz lembrar, sem dúvida, as aventuras mirabolantes de Alice no País das Maravilhas, de Carroll, As Viagens de Gulliver, de Swift e eu ainda acrescento que também me fez viajar até à trilogia Os Nossos Antepassados, de Calvino.

Pois como não poderia deixar de ser, João Sem Medo é o personagem principal destas aventuras. Tudo começa quando João Sem Medo cansado de viver em Chora-Que-Logo-Bebes, que era uma aldeia onde os infelizes choraquelogobebenses não faziam mais nada do que choramingar de manhã à noite, decide saltar o Muro. Este tinha sido «construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.» Nunca nenhum choraquelogobebense ousou saltá-lo e João Sem Medo estava a querer quebrar todas as regras, levando a sua mãe ao desespero, que berrava histericamente por não mais voltar a ver o seu rico filhinho.

E assim que João Sem Medo salta o Muro entra num mundo mágico e dá início a hilariantes e inacreditáveis aventuras, que acabam por desmistificar as histórias de Príncipes e Princesas, Dragões e Gigantes, Fadas e Bruxas Más. Sim as histórias das Fadas e das Princesas são aqui achincalhadas por João Sem Medo. Este não se deixa facilmente intimidar pelas forças enigmáticas e malévolas da Floresta Branca e com o seu ar trocista brinca ironicamente, com o “nosso” imaginário infantil. Acredito que o autor pretendia espicaçar-nos, para que não deixemos morrer a criança que existe em nós.

Para iniciar esta caminhada, João Sem Medo teve de escolher entre dois caminhos: o asfaltado ou o de pedregulhos. O bom caminho conduzia à felicidade, mas para isso João Sem Medo tinha que deixar de pensar:
«-Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas.»
Ora claro está que João Sem Medo optou pelo caminho árduo! Ou não se chamaria João Sem Medo! E é nesta irreverência de ousar saltar o muro e de querer pensar por si próprio, bem como em outras partes da história que encontramos subtilmente a outra mensagem que este livro também pretendia passar. O que à primeira vista não deixa de ser um livro para crianças, é também ele uma mensagem irónica ao Portugal fascista, que vivia alienado e fechado sobre si mesmo e atrasado em relação ao Mundo.

Tudo é tão absurdo e tão bem conseguido fantasticamente por José Gomes Ferreira, que fiquei maravilhada com a sua capacidade efabulatória. Somos completamente transportados para estas aventuras onde habitam gramofones com asas, homens pássaros, meninas de pés ocos, que são feitas de fruta, pedras que têm bocas e tantas outras personagens. E somos também levados a viajar para terras onde todos diziam o mesmo, para outras onde tudo era às avessas, percorremos o deserto onde vimos o nosso herói a sacrificar-se todo para se alimentar, fomos parar à terra do príncipe de orelhas de burro, que se achava o homem mais bonito e a tantos outros lugares inimagináveis.

E assim, com este romance mágico, José Gomes Ferreira faz crescer em nós o João Sem Medo, aquele que salta o Muro e não tem medo de nada, porque carrega em si todos os sonhos do mundo, como o Poeta.

7 comentários:

Rogério Pereira disse...

Que bom ver assim promovida a leitura de um dos melhores livros da minha vida...(sim, considero-o meu!)

Já leu "A memória das palavras - ou o gosto de falar de mim..."?

Abracinho
(há muito que não lhe aparecia, né?)

N. Martins disse...

Gostei muito deste livro que já li há uns anos. Ando cheia de vontade de o reler, agora com outra maturidade para perceber as entrelinhas. :) A tua opinião sobre ele só espicaçou esta vontade.

S. G. disse...

Eu também gostei muito do livro :)

bjs

tonsdeazul disse...

Não ainda não li, Rogério Pereira!
José Gomes Ferreira está nos meus autores de ler mais, por isso irei com certeza ler esse que refere. Tem um título sugestivo. :)
Pois... Apareça sempre que lhe apetecer. Sabe que é bem-vindo. ;)


É realmente uma obra fantástica esta, N. Martins e S.G.!
Sim tem muito por onde se ler nas entrelinhas, N. Martins! ;)
Beijinhos

MJ FALCÃO disse...

Foi bom ouvir falar de um livro esquecido!
A aventura, a imaginação, a generosidade outra vez...
Beijinhos
o falcão

Teté disse...

Tinha passado por aqui a correr, antes do Clube de Leitura e fiquei muito bem impressionada pelo que dizes do livro. Tanto que até o sugeri como próxima leitura, só que uma delas tinha andado à procura do livro para oferecer e não o encontrou à venda. Mas anotei a dica, e assim que o encontrar vou lê-lo. (essa minha amiga também o leu e tem uma opinião idêntica à tua: fantástico!)

:)

Beijocas!

tonsdeazul disse...

MJ Falcão, olá
Adorei mesmo este livro. Ainda bem que foi reeditado. Por vezes perdemos estas pequenas pérolas por as desconhecermos...
Beijinhos

Teté este livro foi reeditado pelas edições Booket da Dom Quixote, que é a minha, mas a LeYa também o tem na sua colecção livros de bolso, BIIS.
Beijocas

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