sexta-feira, 2 de julho de 2010

"uma vida indolente e vadia"

Os Irmãos Tanner, de Robert WalserOs Irmãos Tanner, de Robert Walser é um livro de deambulações. Toda a história se centra em Simon Tanner, um jovem que foge das convenções impostas pela sociedade e leva uma vida indolente e vadia. Simon não consegue permanecer em nenhum emprego durante muitos dias, percorre inúmeras cidades e não se fixa em nenhuma delas, pouco ou nada se relaciona com os seus irmãos, mas mesmo assim é através dele que ficamos a conhecê-los. Klaus, o mais velho e ponderado, que exerce uma posição importante no mundo académico; Kasper, o artista que pinta quadros e com quem gostaria de viver; Hedwig, a professora solitária, que vive algures numa aldeia e Emil, o ideal de um homem jovem e bonito, mas que conduz o seu destino à infelicidade e ao manicómio.
No decorrer dos vários capítulos, Simon ora vagueia em longos monólogos, ora troca ideias, muitas das vezes contraditórias, com alguns dos seus irmãos e com as diferentes pessoas que vão entrando e saindo da sua vida. Neles vai deixando os seus estados de alma, as suas divagações sobre o passar do tempo, da vida, da natureza, da religião, da sociedade e neles vai prolongando a sua forma inútil de viver.
No entanto, talvez Simon seja apenas um sonhador livre e incompreendido por apenas querer vender a sua liberdade durante um certo tempo, ou seja, sempre que a necessidade o exige. Assim, é respeitado apenas por ele próprio, a busca do “ter estatuto” não lhe diz nada e quer continuar a ser uma pessoa, pois gosta do «perigo, do abismo, do incerto, do incontrolável».

«Eu, sou eu quem ofendeu o mundo. O mundo está diante de mim como uma mãe zangada e magoada: um rosto milagroso que me enlouquece, o rosto do mundo materno que exige expiação! Pago por tudo o que negligenciei, por tudo o que perdi ao jogo, por tudo o que perdi a sonhar, por tudo o que falhei e por tudo o que despedacei. Saberei reconciliar a ofendida, e depois, numa hora bonita e familiar da noite, contarei aos meus irmãos qual o meu segredo para andar de cabeça tão erguida. Pode levar anos, mas uma tarefa é para mim tanto mais fascinante quanto mais prolongada e difícil for a tensão das forças por ela exigida.»

Robert Walser, também ele um errante, pelas deambulações vagarosas de Simon Tanner, confronta-nos com uma série de questões que vamos assimilando sem pretensões de julgar o personagem principal.
Uma obra que prima por ter imensos parágrafos em que um leitor, como eu, não resiste a sublinhar para voltar a eles num outro dia ou até mesmo partilhá-los.

5 comentários:

ematejoca disse...

Voltei a Düsseldorf, mas ainda estou tão taralhoca como o cardeal alemão do vídeo da Teté.

Quero voltar aqui para comentar este texto sobre o Robert Walser, escritor alemão, que muito aprecio.

N. Martins disse...

Não conheço mas vou pôr na minha lista de livros a espreitar. :)

Teté disse...

Nunca li nada dele, mas o facto de a sociedade acreditar que os homens devem seguir sempre certos padrões de comportamento não faz que cada um que não os siga seja mais feliz ou infeliz... ;)

Beijocas!

Vou esperar que a Ematejoca diga mais alguma coisa sobre este escritor alemão... :)

N. Martins disse...

Comprei-o este fim-de-semana e foi esta tua opinião a responsável. :)

tonsdeazul disse...

Ui! Que responsabilidade!! ;) Espero que gostes, N. Martins. É um livro de muitas deambulações, mas está muito bem escrito e Walser convence-nos a gostar deste Simon Tanner, sem recriminá-lo!

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