sábado, 2 de outubro de 2010

"estou acima do comum dos mortais"

Fiódor Dostoievski é daqueles autores que sempre tem algo mais para contar nos seus livros do que uma simples história. Crime e Castigo, que tem traços autobiográficos, é sem dúvida um desses livros, que nos revela não somente um crime cometido por um jovem, mas também tudo o que está para além desse acto, ou seja, tudo o que se esconde nas profundezas do espírito humano.

Raskólnikov é um ex-estudante pobre que vive sozinho num pequeno quarto em São Petersburgo, pois a magra ajuda que a mãe lhe envia não lhe permite continuar os estudos. Contudo, a sua irmã Dúnia está disposta a casar com um certo Lújin, de modo a melhorar a condição de vida dos três. Mas os seus pensamentos têm vindo a vaguear para algo grande. Algo que está para além das convenções e da moralidade. Algo que o colocará acima do comum dos mortais. Algo que fará dele um Napoleão! Não pode mais adiar o que há muito tinha planeado fazer. Matar e roubar. Assassinar «um piolho abjecto e nocivo, uma velha agiota, uma inútil […], que sugava o sangue dos pobres». E poderá isso ser considerado um crime?

É com esses pensamentos que Raskólnikov sai de casa. Está decidido a praticar um assassínio que o fará um grande homem, pois age por uma causa. Irá matar a velha e roubar-lhe todas as jóias. E não é a pobreza ou a necessidade que o movem, mas sim uma certeza, talvez até uma fé, que o acto em si lhe colocará numa sociedade superior. Assim, já na casa de Aliona Ivanovna com as suas «mãos horrivelmente fracas», «quase sem consciência de si, e quase sem esforço, quase maquinalmente», ergue o machado com as duas mãos e mata a velha agiota. Atrapalhadamente apressa-se a roubar o que tem para roubar, mas após alguns minutos é surpreendido pela irmã dela, Lizaveta. Não hesita e empunha o machado. Lizaveta Ivanovna tomba. Após este segundo assassínio, absolutamente inesperado, o medo começa a dominá-lo. Tinha de sair dali o mais depressa possível.

«As pessoas como que se dividem em «vulgares» e «invulgares». As pessoas vulgares devem obediência e não têm direito de transgredir a lei porque, está a ver?, são vulgares. Mas as invulgares têm direito a cometer todos os crimes e transgredir a lei, precisamente porque são invulgares.»

A partir deste episódio tudo muda na vida de Raskólnikov, mas não como ele imaginava. Ele considerava-se uma pessoa invulgar, mas após ter cometido os dois assassínios não mais a consciência da culpa e os delírios o deixaram. Afinal será que não passava de uma pessoa vulgar?

Ao longo de toda a história vamos descobrindo a fragilidade da consciência e da sanidade. O quanto um acontecimento pode desencadear uma série de reacções contraditórias na razão e na loucura de Raskólnikov. Mas outras histórias vão-se desenvolvendo paralelamente à história central. E é nessas outras histórias paralelas que também presenciamos a frágil fronteira existente entre o discernimento e a alienação. Na mente de Raskólnikov e dos outros personagens que o rodeiam percorremos também pelas nossas comuns imperfeições. As hesitações, as reflexões, as interrogações, as desconfianças, os vícios, a premeditação, a culpa, o conflito, a degradação, a loucura, o delírio, a miséria, o sofrimento, o sacrifício, a ostentação, a bondade, a amizade, o equilíbrio, a maldade, a crueldade, a vileza, a luxúria, a perda, o medo, a mentira, o orgulho, a solidão, o abismo, o arrependimento, a esperança, a redenção, o amor, etc.

Um autêntico retrato da mente humana! Uma obra perfeita para o estudo da psicanálise!

2 comentários:

MJ FALCÃO disse...

Belíssima escolha, tons de azul! Diria: grande pincelada mesmo!
Parabéns e sempre em frente.
Abraço forte
o falcão

tonsdeazul disse...

Obrigada pelas palavras, MJ Falcão! ;) Abraço e bom fim-de-semana, que não seja de chuva para esses lados!

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