"Setenta pessoas juntas que formam uma família, a caminhar para o final do seu tempo."
Misericórdia de Lídia Jorge. Por várias vezes hesitei este livro. Primeiro porque conheço a escrita de Lídia Jorge, que por vezes não é fácil, e segundo por saber que era um livro que abordava a finitude da vida. Ainda a viver o luto do meu pai, receei o embate. Tocou-me profundamente. Entranhou-se em mim.
Baseado nas vivências e pensamentos do último ano de vida da mãe da autora, este é um livro com vida dentro! Porque a morte é apenas um instante. Com ele pude revisitar as memórias dos meus mortos e enfrentar os meus fantasmas através das palavras de Maria Alberta, a quem tratavam por Alberti. Uma senhora cheia de fulgor e "strong".
Recordei os dias em que pisava a grande sala do Lar e o olhar do meu avô todo ele se iluminava. Pegava nas mãos dele e ali sentados ficávamos a falar da eternidade do tempo que nos fugia. E quando me ia, ouvia as suas companheiras de residência a mexericar: "O Sr. Serafim tem muita sorte. A neta está cá todos os sábados!" Naquela altura era uma jovem e não questionava o porquê de pouco me cruzar com outras visitas.
Nessa altura, não era tão duro encarar essa finitude, como o foi há um ano quando o meu pai me deixou. Há um ano quando saí do quarto dos meus pais sabia que o meu pai nos iria deixar nessa noite. Fugi da morte dele. Achava que se me fosse embora ele não morreria. Quando o telefone tocou eu sabia o que o meu irmão tinha para me dizer.
Misericórdia conduz-nos a uma reflexão sobre a vulnerabilidade da vida quando se caminha para o último fôlego. Mas nesta finitude não há somente espera. Há vida carregada de medos e anseios, mas também de curiosidade, sonhos e esperança. Há amizades, batalhas, zangas, amores e derrotas. Há saudade. Há uma enorme ânsia de alimentar os sentidos, num espaço e tempo limitado.
Um livro genuinamente belo, pois "a esperança simplesmente é imortal."
quarta-feira, 8 de novembro de 2023
"a esperança simplesmente é imortal"
terça-feira, 7 de novembro de 2023
Seguir sem ti...
Há um tempo e um espaço que continha a tua presença, pai, e depois há a dimensão da tua ausência.🤍 12 meses
sábado, 27 de maio de 2023
Sobrevivência e Perdão
Euskadi Ta Askatasuna, Pátria Basca e Liberdade
Estávamos nos anos 90. Eu era uma miúda e pouco ou nada ligava ao que passava de notícias na televisão. No entanto, estas estavam sempre a passar na hora do jantar. O meu pai não gostava de barulho naquela hora sagrada e nós irmãos, muito quietos, obedecíamos sem pestanejar.
Uma vez por outra lá havia alguma notícia que nos captava a atenção e já não tirávamos os olhos do pequeno ecrã.
Novo atentado da ETA. Na minha memória estão gravados alguns fragmentos sobre aquele passado recente. Em casa, não se falava sobre isso, por isso assistia, mas não entendia o que se passava. Sabia que não era muito longe daqui e que era algo mau.
Há uns dois anos vi na RTP um série sobre a ETA, A Linha Invisível. Gostei tanto, que despertou-me a curiosidade. Assim, quando soube da história deste livro de Fernando Aramburu sabia que tinha de o ler.
716 páginas que se lêem num ápice. Duas famílias em lados opostos, que retratam tão bem a dor e o sofrimento que marcaram o País Basco durante a luta armada da ETA. Uma história de sobrevivência, mas também de saber pedir/aceitar o perdão.
"Acabou-se. Daqui para a frente, sem mim. E nem sequer teve um movimento de sobrancelhas meses mais tarde, quando viu na televisão aqueles três encapuzados proclamarem que a ETA tinha decidido pôr fim à luta armada."
segunda-feira, 15 de maio de 2023
"Eu tenho um lugar"
Já vos aconteceu terminar um livro e não terem palavras para escrever sobre ele?
"Somos a primeira pessoa do plural" de José Luís Peixoto é um pequeno livro de 101 páginas distribuídas por 20 textos, que o autor selecionou para esta edição especial, lançada pela editora Fundza.
Quando o José Luís Peixoto leu a primeira página do texto "Somos a primeira pessoa do plural", no auditório da biblioteca municipal de Castro Marim, soube que iria querer ler todas as páginas deste livro. Infelizmente, não o trouxe comigo nesse dia, mas chegou à minha caixa de correio três semanas mais tarde.
"Somos a primeira pessoa do plural" fala-nos ao coração e talvez por isso não tenha palavras para expressar o quanto estava a precisar de ler este livro.
É daqueles que lês a última página, fechas o livro e dizes: - Poxa que bonito foi ler-te! É dos que confortam e perduram no tempo. Dos que mais tarde revisitamos, vezes e vezes.
"Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso."
terça-feira, 7 de março de 2023
Ausência de palavras, Vazio
Como se conta uma história tendo apenas desenhos, recortes e pinceladas como guia?
Em Vazio, Catarina Sobral mostra-nos que é possível contar uma história bonita apenas com ilustrações.
Esta maravilhosa fábula visual com ausência de palavras dá-nos a conhecer um homem que apelidamos de Sr. Vazio. Nas imagens podemos ver como o personagem principal, com apenas uma silhueta branca, se distingue de todos os outros.
E o que procura o Sr. Vazio?
Procura-se a si mesmo, para deixar de estar vazio. Assim, no decorrer das suas atividades do dia a dia, como ir ao supermercado, ao médico, passear pela natureza, visitar museus, andar pelas ruas, o Sr. Vazio tenta preencher os vazios da sua vida. Mas nada acontece, pois dia após dia continua sempre vazio.
Até que um dia cruza-se com a Sra Vazia. Hum... O que será que aconteceu na vida do Sr. Vazio?
Curiosidade: "Vazio" foi selecionado para o prestigioso catálogo White Ravena da International Youth Library.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Um hino ao desejo
Mesmo "que nunca tenha deixado [a sua] terra de palmo e meio de província, ainda que só tenha permissão para sair dos dois mil metros quadrados de quintal [...] para ir até à escola que fica já ali", ainda assim o que ele gosta mesmo é de viajar! "E ao cair da noite, com milhares de quilómetros percorridos, até [sentia-se] cansado." Na verdade, ficava "exausto, como um viajante no final da caminhada." Porque na verdade ele era uma criança desejante. Muito mais desejante até do que os homens que constroem "desejos sobre os desejos."
De tanto desejar acabava por "viajar todos os dias sem o notar; mesmo quando a paisagem à [sua] volta não muda nunca e se mantém a mesma, sempre".
A narrativa poética de Rita Taborda "sussurra ao ouvido os caminhos navegados". Convida-nos a saborear as palavras. Pois, mesmo em movimento, estamos parados. Encantados por tamanho "brilho miúdo e desassossegado." E as belíssimas ilustrações de Ana Ventura fazem a ligação perfeita para este embalo de um "barco navegante, luzente e iluminado.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
pequenos detalhes
Continuo a pensar em ti todos os dias, mesmo quando não te escrevo.Há sempre um momento do dia em que a minha memória te vai buscar para junto de mim. Ou talvez sejas tu que entras pelos meus pensamentos adentro e muito solícito insistes que tenho de parar e pensar em ti.
Por vezes, vou a caminho de casa e um pequeno detalhe, como uma nuvem, traz-me o teu rosto até mim.
Outras vezes, quando vou a caminho da tua casa para ver a mãe, recordo aqueles dias em que depois do trabalho ia ao teu encontro e ficava sentada junto da tua cama à espera que me contasses o teu dia. E tu pouco dizias. Só querias estar ali deitado e quieto. Sabias que eu estava ali e isso chegava-te. Por vezes, eu fazia mais uma tentativa de diálogo, mas tu não querias conversar. E eu ali ficava a ver-te até ter que me ir embora. E sempre que ia, era mais um dia que sentia e sabia que te perdia. Maldita doença que te levou de nós!
Fiquei órfã de ti e não sabia que nesta idade iria ser na mesma difícil. Nem sabia que seria um processo de luto solitário. Também não sabia que cá dentro estão todos os sentimentos e que todos os dias sai um para me levantar ou deitar no chão.
Penso em ti todos os dias, pai. E hoje, particularmente, escrevo-te porque estou mais perto do chão.
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