terça-feira, 8 de outubro de 2013

"Halldora, a Islândia rebelde e imatura"

Hoje finalmente consegui sentar-me para poder escrever algumas palavras sobre a minha última leitura, A Desumanização de Valter Hugo Mãe. Esta é uma história de uma extrema sensibilidade poética e um tanto ao quanto delirante. Como Valter Hugo Mãe já referiu, nas muitas entrevistas que tem dado, é «uma declaração de amor esquisita, mas é a mais sincera declaração de amor aos fiordes do Oeste islandês.»

Halldora ou Halla é um menina de onze anos, que é vista pelas gentes como a irmã «menos morta». «A mais morta», «a criança plantada», morreu. Eram gémeas. «Crianças espelho.» Tudo se dividiu por metade com a morte de Sigridur. Einar, o tolo da aldeia, por quem Halla se apaixona, dizia-lhe que agora estava de «fantasma dentro». Já a sua mãe sempre enferma dizia-lhe que tinha «duas almas para salvar ao céu.» Por isso, Halla queria que o pai fizesse dela um bonsai, para que o seu corpo não fosse outra coisa «senão a imagem cristalizada da [sua] irmã.»

Nesta paisagem bela como a Islândia, mas ao mesmo tempo, um tanto ao quanto dura, desolada, aniquilante, esquisita, ou melhor: desumanizada; Halla tem conversas com Sigridur em dias de solidão e escuridão. A sua mãe refugia-se na automutilação. O seu pai definha, salvando-se apenas na poesia, que partilha com Halla. E a presença de Deus é uma constante, neste cenário onírico e de amargo sofrimento. Assim, é necessário desumanizar para crescer, para se continuar em frente e enfrentar a «experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.»

Mesmo num cenário extremamente belo, Valter Hugo Mãe não deixou de criar personagens tão desprotegidas e rejeitadas, como já nos habituou em outras estórias. E neste lugar diferente, numa linguagem não só poética, mas também livre e alegórica, o autor revela a sua profunda comunhão com a Islândia.

E as ilustrações de Cristina Valadas embelezam ainda mais o livro.

5 comentários:

Mar Arável disse...

Sempre apreciei escarpas

mares desgrenhados

Bj

S. G. disse...

acabei na sexta passada...há pelo menos um regresso a um espaço mais poético, mais valteriano, diria que ele fez o que sabe fazer melhor. finalmente, e após duas desilusões, um bom esforço, mais honesto para com os leitores.

bj

tonsdeazul disse...

Mar Arável,
São sempre lugares extremamente perigosos, mas também muito fascinantes! ;)


Sim S. G., este é um novo regresso à escrita inicial de VHM.
É uma história acima de tudo com poesia e sofrimento.

Nina Porcelain Lennitta disse...

Estava ansiosa por ler e agora ainda fiquei mais! Adoro VHM! :) Este está na minha lista a enviar ao Pai Natal eheheh

teresa dias disse...

Olá!
Aqui estou a "espreitar" a tua opinião.
Ainda não acabei a leitura mas já estou rendida. Pena que seja necessário desumanizar para crescer...
Boas leituras.

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