quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"o galo que salvou as gentes dos remorsos"



«Esta é a terra do galo milagroso que depois de assado cantou e veio a ter descendência, tanta que, se ainda não chegou ao milhão, pouco lhe há-de faltar. A história conta-se em palavras breves e não é mais maravilhosa que falar Santo António aos peixes e eles ouvirem-no. Foi o caso que em Barcelos houve, em imemoriais tempos, um crime, e não se apurava quem fosse o criminoso. Deu em caírem as suspeitas num galego [...]. Foi o homem preso e condenado à forca, e antes de ao patíbulo o levarem pediu para ir à presença do juiz que dera a sentença. O tal juiz, se calhar por se sentir muito contente consigo próprio e com a justiça feita, estava comendo do seu bom e do seu melhor, enquanto numa travessa um galo assado esperava o trinchante. Tornou o galego a afirmar-se inocente, com risco de estragar a digestão do juiz e seus amigos, e, em desespero de causa, desafiou todas as leis do mundo e do céu, e garantiu: «Tão certo é estar eu inocente, como esse galo cantar quando me enforcarem.» O juiz, que julgava saber muito bem o que é um galo morto e assado, e não adivinhava de que primores é capaz um galo honrado, largou a rir. Foi uma surriada. Levaram o condenado, continuou o almoço, e, às tantas, quando enfim avançava o trinchante para o assado, levanta-se o galo da travessa, pingando molho e desarrumado as batatas, e lança pela janela fora o mais vivo e repenicado canto de galo que na história de Barcelos se ouvira. Para o juiz foi como se tivessem soado as trombetas do Juízo Final. Levanta-se da mesa, corre ao lugar da forca ainda de guardanapo atado ao pescoço, e vê que também ali haviam funcionado os poderes do milagre, pois o nó se deslaçava, facto que muito espantava os assistentes, vista e provada a competência do carrasco.
O resto já se sabe. Foi solto o galego, mandado em paz, e o juiz voltou ao almoço que arrefecia. Não conta a história qual teria sido o destino do milagroso galo, se foi comido em acção de graças, ou venerado em capela enquanto o tempo lhe não desmanchou a armação dos ossos. O que se sabe, por evidentes provas materiais, é que [...] na figura dos seus descendentes de barro, voltou ao forno para ser mostrado vivo em todas as feiras do Minho, com todas as cores que um galo tem ou podia ter.»
Viagem a Portugal, José Saramago

6 comentários:

Menphis disse...

Quero muito ler esse livro. Ansioso por conhecer o nosso país pelas palavras de Saramago.

tonsdeazul disse...

Ainda não o terminei, Menphis!
Aproveitei a nova edição que saiu agora. São 627 páginas! Saramago aqui usa muito mais a pontuação, mas o seu estilo é visível.
Está a ser muito interessante percorrer o país, do Norte até ao Sul, pelos olhos do viajante Saramago. E o engraçado é que ele, o viajante, parece não querer deixar de parte toda a santa terrinha! :)

The fanatic reader disse...

E José Saramago também há-de cantar sempre, como o galo :)

tonsdeazul disse...

Sem dúvida que sim, The fanatic reader! :)
Ainda continuo pela minha "Viagem a Portugal", ao sabor das palavras saramaguianas.

Teté disse...

Sabes que não consigo ler Saramago, mas ele conta estas pequenas histórias que são simplesmente deliciosas... :)

Beijocas!

tonsdeazul disse...

Pois sei, Teté! E também sei que já não é a primeira vez que me dizes que gostas destas pequenas histórias dele. Fico sempre contente em saber, por isso vou continuar a procurá-las para partilhá-las aqui. ;)
Beijinhos e ainda bem que já estás melhor

Pinturas populares (últimos 30 dias)