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terça-feira, 7 de novembro de 2023

Seguir sem ti...


Há um tempo e um espaço que continha a tua presença, pai, e depois há a dimensão da tua ausência.

🤍 12 meses
#sobreaperda #luto #vidaemorte

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

pequenos detalhes


Continuo a pensar em ti todos os dias, mesmo quando não te escrevo.

Há sempre um momento do dia em que a minha memória te vai buscar para junto de mim. Ou talvez sejas tu que entras pelos meus pensamentos adentro e muito solícito insistes que tenho de parar e pensar em ti.

Por vezes, vou a caminho de casa e um pequeno detalhe, como uma nuvem, traz-me o teu rosto até mim.

Outras vezes, quando vou a caminho da tua casa para ver a mãe, recordo aqueles dias em que depois do trabalho ia ao teu encontro e ficava sentada junto da tua cama à espera que me contasses o teu dia. E tu pouco dizias. Só querias estar ali deitado e quieto. Sabias que eu estava ali e isso chegava-te. Por vezes, eu fazia mais uma tentativa de diálogo, mas tu não querias conversar. E eu ali ficava a ver-te até ter que me ir embora. E sempre que ia, era mais um dia que sentia e sabia que te perdia. Maldita doença que te levou de nós!

Fiquei órfã de ti e não sabia que nesta idade iria ser na mesma difícil. Nem sabia que seria um processo de luto solitário. Também não sabia que cá dentro estão todos os sentimentos e que todos os dias sai um para me levantar ou deitar no chão.

Penso em ti todos os dias, pai. E hoje, particularmente, escrevo-te porque estou mais perto do chão.

#sobreaperda #luto #vidaemorte

domingo, 8 de janeiro de 2023

As tuas laranjas

 

Dois meses, meu pai. 

Achei que não te iria escrever desta vez. Que a vida seguia e eu seguia com ela. Mas, aqui estou. 

Sempre te tratei por você e agora trato-te por tu, meu pai. Espero que não me leves a mal esta irreverência.

Hoje trago-te esta fotografia do teu neto a apanhar as tuas laranjas. Tu gostavas de lhe pôr o escadote para ele subir, mas achavas sempre que não seria muito seguro para ele. Na verdade, nem para tu subires aquele escadote velho era seguro. Mas tu subias e enquanto subias o teu neto cruzava os braços de tão zangado e amuava. E quando tu descias, ele subia todo contente e atirava-se às laranjas para tu apanhares. Mas tu em tom sério dizias "- Sai daí rapaz que ainda cais daí de cima." E ele cantarolava e não ligava ao que tu lhe dizias. "- Não caio não, avô." 

Nunca foste de muitas conversas e o teu silêncio sempre ditou um certo distanciamento entre nós. Foste pai de outros tempos, mas eras um avô preocupado. Nunca te disse, mas gostava de te ver com o teu neto. Eras diferente. Tinhas um cuidado especial para com ele e isso notava-se no teu olhar.

Sabes, temos ido lá a casa às tuas laranjas. Sempre que as descasco a vida segue e eu sigo com ela.

#sobreaperda #luto #vidaemorte

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Palavras para ti, Pai

 

Um mês sem ti, pai. 

Todos os dias conto mais um dia sem ti. Dizem que o tempo ajuda a atenuar a dor, o aperto no coração e que a saudade fica mais suave. Talvez seja assim, mas por agora choro-te pai. No silêncio, sozinha choro-te. Choro-te por já não estares connosco. 

Por ter-te visto ir todos os dias mais um bocadinho. Por ter sentido a vulnerabilidade da vida através de ti e saber que não podia fazer nada mais do que estar contigo. E essa sensação de impotência foi dilacerante. Não te consegui valer, meu pai. 

Porque a vida é assim mesmo, dizem-nos. Por isso, tive de aprender a gerir as emoções (quando ainda estavas connosco) e deixar-te partir.

Recordo estas últimas fotos que tirei-te com o teu neto e são o momento mais especial em que vos apanhei juntos. Ele a seguir as tuas pedaladas de ciclista e tu todo orgulhoso.

Por vezes, ele apanha-me num dia mais triste e pergunta-me se é por causa de ti que choro. Nesta última vez, ao dizer-lhe que sim respondeu-me: "- Sabes menina mãe quando eu fico triste, logo a seguir penso em uma coisa que me faz feliz."

E sabes o que me respondeu quando lhe perguntei no que pensa para ficar feliz? 

"- Penso muito em batatas fritas, na praia e no cinco que dava ao avô".

E são estas pequenas conversas com o teu neto que me fazem sorrir no luto da tua perda. Choro-te de saudade, meu pai. 

Seremos sempre cinco.

#sobreaperda #luto #vidaemorte

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Assim é o amor

El Chaltén, Argentina

Quando ao fazer o trekking de Cerro Torre, em El Chaltén, ficas presa a uma paisagem, isso pode significar que no dia seguinte calças novamente as botas e sem pensar partes para o trilho da Loma del Pliegue Tumbado só para poderes ver aquela mesma paisagem vista de cima.

E de tanto subir já não sentes as pernas, mas mesmo assim continuas porque aquela paisagem persegue-te e queres vê-la de uma outra perspetiva. Queres apontar o dedo lá para baixo e dizer: "- Estás a ver aquela lagoa, ontem foi ali que estive. Exatamente ali."

Nos entretantos... Pode-se chamar a isso de amor?

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Luzes de Natal

Faro, Portugal

- Vamos ver as luzes de Natal?
" - Não, menina mãe. Hoje não."
- Então? Tu querias tanto ver as luzes na cidade!
"- Vamos na sexta quando o pai chegar, menina mãe. Sabes, temos de ir ver com o papá, para ele não ficar triste. É que as luzes de Natal são mesmo muito bonitas e o papá não pode perder."

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Tão longe, tão perto

Lagoa, Portugal

As palavras são poucas para espelhar os sentires e as emoções que todos os dias marcam a distância deste ano. 
São os momentos de ausência no despertar das manhãs e as conversas demasiadamente curtas no final das noites, que ditam o passar das semanas. 
A contagem decrescente no calendário não é sinónimo de suavização de saudade, mas atenua a dor no coração. 
Há dias cinzentos, azuis e de todas as cores. Há dias e dias. E há sempre a esperança no dia do regresso a casa. 
Até lá fica o pensamento no sabor dos dias vividos, o calor do abraço na despedida e o sorriso nas palavras que chegam.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

a Fé de Javi

Catedral de Girona, Espanha 

- ¿Abuelo qué es la fe? Perguntava Javi enquanto, esmorecido, subia as escadas da Catedral, com o seu avô Toño. 
- La fe es algo que creemos mucho. ¡Javi, no puedes rendirte ahora que todavía no han llegado a la cima! 
- ¿Abuelo... Tenemos que creer mucho para tener fe? 
- Sí, pero tenemos que creer en la fe. 
- ¡Pero entonces tenemos que parar! 
- ¿Por qué, Javi? 
- Porque hoy me desperté con una fe cansada.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

28

Lisboa, Portugal 

Sempre que saía de casa pela manhã os seus passos ligeiros encontravam-se com o 28, que em modo turístico percorria as ruas da cidade.
Havia certos dias ao fim da tarde que gostava de apanhar o 28 na Graça, para entrar num tempo passado. Debruçava-se sobre a janela e de olhar nostálgico tentava desvendar os mistérios da cidade que tanto lhe inspirava. Eram as praças, as ruelas estreitas e íngremes, as colinas e os miradouros, as casas de fado, as residências apalaçadas e as casas burguesas. Era um subir e descer. Era um sem fim de cheiros e sabores, de luz e cor... 
O 28 no seu percurso sem pressa seguia agora em direção ao Miradouro de Santa Luzia. Já o seu destino era a Praça Luís de Camões. Mas tinha tempo. Não iria apressar o fim da sua viagem.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Maria Alevanta

Porto de Pesca em Olhão, Portugal

Maria Alevanta, assim me chamam as gentes daqui e de acolá. Ora me levanto, ora me sento. Ora me sento, ora me levanto. Vagueio por estas ruas todos os dias e todos os dias ora me levanto, ora me sento. Ora me sento, ora me levanto. Já há muitos e muitos dias que mais nada sei fazer.

Uns passam e não me veem. Outros olham e riem. Não sei bem se de mim ou se deles próprios. Há quem se aproxime e até meta conversa, mas esses são poucos e partilham a rua comigo. 

Agora os dias são mais frios e cinzentos. E as noites são tão geladas que até arrepiam os ossos! Mas eu não me deixo ficar. Calcorreio esta calçada todos os dias para ver as gentes a passar. E ora me sento, ora me levanto. E ora me levanto, ora me sento.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

a EScaLADa

Buachaille Etive Mòr em Glen Etive, Escócia. Fotografia de Liefde

Tinha acabado de descer a Buachaille Etive Mòr. Sentia-se cansada. 

Não tinha sido tarefa fácil a subida e além disso não conseguiu escalar até ao topo. Porventura, uma pena. Muitos tinham sido os aventureiros que lhe ultrapassaram o passo, mas ela também não estava com pressa de chegar. Sabia que a sua preparação não era a deles. Por isso não quis arriscar chegar até ao cimo. Faltara-lhe um pedaçinho assim... Olhou um último momento para o cume já tão perto e, ainda ofegante, virou costas. Aproveitou para desfrutar da paisagem envolvente e respirar bem fundo para iniciar o caminho de regresso. 

Agora ali sentada contemplava a magnífica montanha que já tinha sido cenário de fundo de tantos e tantos filmes, incluindo o seu Braveheart de que tanto gostava. Olhando dali, Buachaille Etive Mòr já não lhe parecia enorme e traiçoeira. 

No silêncio, o banco do imenso jardim guardava a memória de três caminheiros: um pai, um filho e um amigo...

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

partilhas ao pôr-do-sol

Miradouro do Escavaldo em São Miguel, Açores, Portugal

Ela quis voltar a ver o pôr do sol. Ali, naquele lugar que sempre fora o lugar deles. Onde ele lhe contava estórias de heróis e gigantes. E onde ela em silêncio espreitava o palpitar do coração dele.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

a lagoa do fogo

Lagoa do Fogo em São Miguel, Açores, Portugal

Quando saíram naquela manhã de sol a caminho de mais uma aventura, estavam longe de imaginar que iriam perder-se de deslumbramento naquela a quem chamam a "Lagoa do Fogo".
Ali estava ela, tranquila e em silêncio, à espera que mais viajantes a descobrissem no seu quieto recanto.
Vaidosa como é, deixava-se fotografar de vários ângulos e pedia para ficarem mais um pouco. Para não lhe virarem as costas assim tão rápido, como tantos outros!
- "O melhor mesmo é contemplarem-me de mais perto. Desçam. Desçam até mim!"
E assim foram eles, embalados pela quietude, descendo pela encosta, até mergulharem no intenso azul.

domingo, 7 de julho de 2013

a espera

Jardins do Palácio da Pena em Sintra, Portugal

Ele chamava-lhe “minha princesa”, sempre que se encontravam nos jardins do Palácio. Ela sorria e sentia-se realmente como uma verdadeira princesa! 
Naquele dia de neblina, ela chegou cedo. Sentou-se e esperou por ele no mesmo lugar de todos os dias, mas ele não apareceu. 
Nos dias seguintes, o banco de pedra voltou a esfriar. 
Os dias foram dando lugar a meses e a anos... Ele nunca mais lhe chamou de “minha princesa”. 
Na verdade, aquele lugar recôndito deixou de espreitar os dois amantes.

sábado, 29 de junho de 2013

"Esse Olhar Que Era Só Teu"

Faro, Portugal

- Miúdo... Tocas uma música para mim?
- Oh! Eu não sei tocar...
- Podias tocar aquela música linda de bonita!
- Hum... Ah! Essa eu sei tocar.
- Então toca que eu gosto de a ouvir.

terça-feira, 28 de maio de 2013

magriço

Vila Nova de Cacela, Portugal

Escapuliu-se assim que a viu. 
Talvez fosse um assustadiço. Ou talvez, quem sabe, um desconfiado com os estranhos. Na verdade não devia gostar cá de aproximações! 
O certo é que ela também não chegou perto. Tinha pavor de gatos. Chamou-lhe Magriço e virou-lhe costas. Já tarde, foi encontrar-lhe de olhos fixos a observar os seus passos. Não resistiu. A medo, disparou.

terça-feira, 5 de março de 2013

espelhos da vida


Andou durante largos anos à procura de si própria dentro dos espelhos da vida. Criou várias identidades e encarnou diversas personagens, mas nunca chegou a encontrar-se. Com o passar do tempo, a busca tornou-se inglória. Na verdade, não tinha vivido. Um dia, olhou para si refletida em mais um espelho e desesperou por não encontrar nada mais do que o vazio. Tinha sido sugada pelas personagens que tinha inventado.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Pinturas populares (últimos 30 dias)