terça-feira, 11 de junho de 2024

Maria Teresa Horta, A Desobediente


Ler "A Desobediente, Biografia de Maria Teresa Horta" de Patrícia Reis, é imergir no universo de uma mulher ímpar. Maria Teresa Horta é a mulher das palavras, da poesia, do feminismo, do corpo, do desejo, da sexualidade, da luta, da liberdade, das ideias, da literatura, da irreverência, das convicções, da paixão e também do amor desmedido por Luís de Barros a quem dedica a maioria dos seus livros. 

Patrícia Reis é maravilhosa nesta demanda tão inglória que é abraçar uma vida inteira de uma figura incontornável do nosso século. Maria Teresa Horta é mulher, jornalista, escritora, poetisa, mãe, avó, bisavó, foi e continua a ter uma voz ativa em tantos outros papéis. O seu nome está fortemente associado à luta contra o fascismo e o Estado Novo. É uma das três autoras do livro, Novas Cartas Portuguesas, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. Toda a sua vida lutou pelas condições da mulher em Portugal. Nem sempre foi bem vista e reconhecida, pois "ser feminista era uma coisa aviltante".

Imergi, assim, para um tempo em que "as mulheres praticamente não tinham corpo" e "eram todas iguaizinhas", onde quem mandava era o homem. Fui parar a um tempo que não vivi, nem conheci. Em que não se questionava a situação da mulher. Esta não tinha uma "voz ativa, não tinha uma voz real", porque na hora de decidir era a mesma coisa que ser muda.

Não conheço toda a obra de Maria Teresa Horta, mas admiro imenso esta mulher desde a minha juventude. Gosto da sua teimosia e rebeldia, da sua voz na política e na cultura, que com os seus 87 anos continua sempre tão lúcida e coerente consigo própria. 

Ouvir ou ler Maria Teresa Horta é sentir a paixão nas palavras e o quanto a palavra "mulher" faz parte de si, da sua identidade. 

"Mesmo que não entendesse, achava sempre lindo que as palavras viessem dali dos livros. E cada palavra tinha um peso específico, uma música, isso era um dos mistérios que gostaria de desvendar com alguma pressa, porque intuía que ali, nas palavras, estava um caminho que era seu." 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Sendero de La Hija Cambada


O Parque Rural de Anaga em Tenerife é daqueles lugares imperdíveis para os amantes de trilhos.

Contudo, se estiveres com o tempo contado e mesmo assim quiseres fazer 1 ou 2 caminhadas, aconselho-te o Sendero de los Sentidos (1,6 km) e o Sendero de La Hija Cambada.

Este último com uma distância de 5,5km já dá para sentires a magia da floresta de laurissilva. É como se estivesses mesmo dentro de uma história de fantasia.

Com um grau de dificuldade fácil/moderado, este percurso circular tem início e chegada no Centro de Visitantes Cruz del Carmen e é acessível para famílias com crianças.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

"O que estará para lá do grande muro vermelho?"


Os livros de Britta Teckentrup têm tudo o que gosto num livro infantil: ilustrações bonitas e uma história simples, que nos faz pensar/questionar. ❤️

"O que estará para lá do grande muro vermelho?"

"O Ratinho e o muro vermelho" é um livro para os audazes e destemidos que, com a sua curiosidade, ousam olhar mais além. Que não têm medo e se aventuram no desconhecido. Que vão em busca de uma liberdade para todos. Sem muros ou vedações. 

Mas também é um livro para os receosos, que vivem paralisados e escondidos na sua concha.

Pois quantas vezes é que, por receio do que não compreendemos, criamos barreiras e nos fechamos ao mundo ou ao outro? Quantas vezes é que acreditamos naquilo que nos impingem diariamente e não vamos em busca da verdade por nós mesmos? 

Por isso, todos os dias são um bom dia para lutar pela liberdade e por um mundo sem barreiras, pois "irá haver muitos muros na tua vida [...]. Alguns serão feitos pelos outros, mas a maioria será criada por ti..." 

terça-feira, 14 de maio de 2024

23| livrarias e bibliotecas no mundo


"Só depois é que fui à procura da grande biblioteca, as Galveias, que não seria tão grande assim, mas para mim era o mundo…" 
José Saramago 

Por estes dias tive a oportunidade de visitar a biblioteca municipal do Palácio Galveias e estava tão apinhada de leitores que, por opção, estes foram os únicos registos fotográficos que fiz para memória futura.

Com um acervo de 60 mil documentos, o edifício do Palácio Galveias prima também por um património arquitetónico muito bonito e que vale a pena visitar.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

"Sendero Malpaís de Güímar"


"Sendero Malpaís de Güímar" foi um daqueles trilhos que decidimos fazer sem estar no programa de Tenerife e só posso recomendar, porque gostámos imenso.

Este é um trilho circular, com início e final no Puertito de Güímar. Tem uma extensão de 6km, um grau de dificuldade baixo e duração de 3h.

Com uma paisagem vulcânica única que se estende desde a Montaña Grande até à costa, Malpaís de Güímar é uma Reserva Natural Especial de grande importância ecológica, que foi declarada área protegida em 1987. 

Digam-me se as fotos não falam por si.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

"a beleza é o grau mais elevado da verdade"


"Lucrei porque sou um entre milhares, dez milhões e tal, que melhoraram as suas vidas passando a viver em liberdade."

Com "Os Memoráveis" regresso à oralidade e à escrita tão própria da autora de "A Costa dos Murmúrios" e "O dia dos Prodígios". Pois com "Misericórdia" tinha esquecido o quão desafiante pode ser a escrita de Lídia Jorge.

Entro em 2004. Vive-se os 30 anos da Revolução dos Cravos. Nos EUA, a repórter Ana Maria, uma filha de Abril, é convidada para fazer um documentário para a CBS sobre a Revolução de 74: "A História Acordada". Sobre a derradeira noite de 24 para 25 de abril. Aceite o desafio, Ana Maria regressa a Portugal e juntamente com dois antigos colegas passam à ação. Desenrolam-se uma série de entrevistas com os diferentes intervenientes do golpe de Estado, revisitam-se vários lugares e assim, ao longo dos capítulos a História passada vai-se construindo. 

Paralelamente, a história pessoal de Ana Maria com o pai António Machado cruza-se com a dos heróis. Ao longo dos capítulos vamos acompanhando os silêncios e as parcas conversas entre eles. 

O enredo pode parecer simples, mas a escrita de Lídia Jorge exige uma leitura mais lenta, concentração e foco. Perdi-me por vezes e também não consegui reconhecer todos os protagonistas da História. Tive de voltar atrás e recomeçar.

A autora procurou o olhar da minha geração. A que não viveu a euforia do 25 de abril, mas que graças a ele pôde viver em liberdade, com todas as suas alegrias, consequências e desilusões.

Pois há os que abdicaram da história e os heróicos que no presente foram esquecidos. 

"Que feliz mesmo seria o dia em que todos pudessem esquecer que eles foram necessários, e até que existiram. O meu marido era assim, desprendido. Um herói da retirada, o meu marido."

Mas há que não deixar esquecer. ❤️

quinta-feira, 25 de abril de 2024

#50anos25abril


"Um povo pobre, sem álgebra, sem letras, cinquenta anos de ditadura sobre as costas, o pé amarrado à terra, e de repente acontece um golpe de Estado, todos vêm para a rua gritar, cada um com a sua alucinação, seu projecto e seu interesse, uns ameaçando os outros, corpo a corpo, cara a cara, muitos têm armas na mão, e ao fim e ao cabo insultam-se, batem-se, prendem-se, e não se matam."

Os Memoráveis, Lídia Jorge 

Pinturas populares (últimos 30 dias)