sexta-feira, 15 de junho de 2012

“Narrava histórias que viviam no seu poço de sonhos”

Não sabia nada sobre O Fabuloso Teatro do Gigante. O autor também me era desconhecido. No entanto, a sinopse aguçava-me a vontade para o ler e a capa era bastante inspiradora. Por isso foi assim que, em boa hora, arrisquei descobrir esta história com sabor a sonhos. 

David Machado é um jovem autor com uma capacidade de efabulação impressionante. O Fabuloso Teatro do Gigante é uma autêntica viagem ao mundo da imaginação, que me relembrou, por várias vezes, um filme maravilhoso e apaixonante de que tanto gosto, O Grande Peixe (Big Fish de Tim Burton). 

Neste seu primeiro romance, o autor conta-nos a história de uma povoação do norte de Portugal, a aldeia de Lagares. Isolada no meio das serras, esta aldeola do Minho seguia a sua rotina diária sem incidentes de maior até ao dia em que chegam a este lugarejo Thomas e Eunice. Ele um antilhano colossal de olhar profundo, cujo os habitantes apelidam de imediato de Gigante. Ela uma mulher pequena e franzina, com rosto de menina e de cabelos cor de fogo, que estava para dar à luz os gémeos Afonso e Leonor. 

Com a chegada do gigante e da professora primária, a vida em Lagares não mais voltou a ser a mesma… «A princípio a superstição do povo fez nascer uma certa suspeita em torno do gigante, porque havia quem afirmasse que ele não era real, que era um fantasma que tinha atravessado o oceano para vir penar na tristeza infinita das serras. Na verdade, a única coisa que parecia ligá-lo a este mundo era a mulher, cuja presença física se revelava tão intensa que ninguém duvidou que existia em carne e osso.» 

Vejo O Fabuloso Teatro do Gigante como uma história bonita, que nos vai permitindo entrar no inesgotável poço de sonhos de Thomas. E não quero adiantar muito mais, até porque a sinopse já revela o bastante. É um livro que fala do poder da imaginação e o efeito que ela causa na vida de qualquer um de nós. Basta que nos deixemos contagiar.

domingo, 10 de junho de 2012

"a minha vida pela estrada fora"

Sortelha, Sabugal

«- Queres dizer que vamos acabar como velhos vagabundos? 
- E por que não, pá? É claro que vamos, se quisermos, e tudo isso. Não há mal nenhum em acabar assim. Passas uma vida inteira sem interferires com os desejos dos outros, incluindo a classe dos políticos e dos ricos, e ninguém te chateia e tu fazes da tua vida aquilo que quiseres. 
Concordei com ele. Ele chegava às suas resoluções Tao do modo mais simples e directo. 
- Qual é a tua estrada, pá? A estrada dos tipos santos, a estrada dos tipos doidos, a estrada do arco-íris, a estrada do aquário, de qualquer estrada. É a estrada para toda a parte, para toda a gente.» 
Pela Estrada Fora, Jack Kerouac

segunda-feira, 4 de junho de 2012

“Nunca um monarca amou mais o seu povo”

«- Asseguro-vos que jamais existiu joia ou esplendor que eu tenha colocado à frente daquela que foi sempre, para mim, a maior de todas as riquezas: o vosso amor. 
A voz tremia-lhe: 
- Este reino pode já ter sido servido por um monarca melhor. Mas nunca, jamais houve nem haverá em Inglaterra um monarca que mais ame o seu povo. A câmara levantou-se em peso a aplaudir. Os deputados comentavam que fora o seu melhor discurso de sempre. O discurso áureo de Isabel I, ouvia-se entre as bancadas. Comovida, a rainha olhava-os, sem o saber, pela última vez.» 

Isabel I de Inglaterra e o seu médico português de Isabel Machado foi uma daquelas leituras de que gostei bastante. A dinastia Tudor e o reinado de Isabel I, em particular, fascinam-me, por isso à partida a obra já me suscitava curiosidade. Depois também engloba um período sensível de Portugal, a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir. Então a vontade em o ler era ainda maior. Com um concurso lançado pelo blogue Viajar pela Leitura, consegui a oportunidade de que precisava. Aproveito assim, para agradecer mais uma vez à Paula e à editora a esfera dos livros

O livro narra toda a vida de Isabel I. Desde jovem princesa, enquanto filha de Henrique VIII e de Ana Bolena (a rainha controversa que nunca foi vista com bons olhos na corte), passando pelas contrariedades que teve de ultrapassar para ascender ao trono como rainha de Inglaterra e tudo o que teve de batalhar durante o reinado até ao final da sua vida. E é neste contexto que nos é dado a conhecer aquele que viria a ser o seu médico pessoal, Rodrigo Lopes. Um judeu português, convertido ao catolicismo fora de portas, que decide rumar a Inglaterra com a nova era que se iniciava, por esta prometer um país mais tolerante. 

Gostei da forma como a autora caracteriza Isabel I. Revelando o seu lado de monarca, mas não esquecendo o seu lado enquanto mulher. Isabel foi uma mulher de fibra, que deu tudo pelo seu povo, em prol da sua vida privada. Era uma mulher brilhante, culta, dominadora, manipuladora, exímia e imprevisível, que soube conduzir sempre o seu reinado com firmeza e mestria. Não é por acaso que o seu reinado é considerado a época áurea da história de Inglaterra. Contudo, também foi uma mulher vaidosa, apaixonada, ciumenta, sensível, vulnerável, leal e humana, daí as suas incertezas e indecisões face às suas sentenças que ditavam o destino de vidas humanas. 


Considero ainda que foi bastante interessante cruzar o destino de Isabel I com o de Rodrigo Lopes. Penso que o romance ganhou outro fulgor, até porque é um facto não muito conhecido. Eu desconhecia e por isso achei deveras curiosa esta ligação de confiança e confidências. Depois toda a intriga palaciana, a que aquelas épocas eram tão suscetíveis, está também muito bem conseguida neste romance. Pode-se dizer que o desespero de Rodrigo Lopes tão bem retratado pela autora, representa de alguma forma os inocentes que tantas e tantas vezes são apanhados nas teias da conspiração e da traição e já não conseguem fugir à tortura e ao cadafalso. 


Isabel Machado é brilhante no seu livro de estreia, pois consegue agarrar o leitor logo no início do romance e este, já não se desprende mais até chegar ao fim. Gosto de romances históricos, mas escritos por autores portugueses não tenho lido muitos e por isso este surpreendeu-me pela narrativa despretensiosa e pela qualidade e cuidado na interligação entre os factos reais e os fictícios. Nota-se que houve um trabalho de pesquisa e de investigação, pois a sua capacidade em arrumar os acontecimentos no tempo e no espaço histórico é notável. Foi realmente um prazer ler esta obra!

sábado, 2 de junho de 2012

"traição"

traição, Fernando Madeira, Portugal*

Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo... 

Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer 
Porque eu sou do tamanho do que vejo 
E não do tamanho da minha altura... 

Nas cidades a vida é mais pequena 

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. 
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave, 
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu, 
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, 
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. 
O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro
_________________________
* Trabalho vencedor (categoria adultos) na 2ª edição do Concurso Internacional de Banda Desenhada Avenida Marginal. A exposição oficial será no dia 17 de junho, no Palácio dos Aciprestes, Fundação Marquês de Pombal, em Oeiras.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

«Regresso à infância»

Smile Color, Carolina Farías, Argentina

«volto à infância: aos tambarinos

ácidos como os frutos
proibidos, aos cajus
polpudos,
às mangas vermelhas como o sol

aos filmes do Zorro
no São Domingos, à quitaba
e ao bombó assado,
enchendo de felicidade o
estômago

ao espadachim de mentira,
com improvisados floretes retirados
às construções, à
caçambula, atreza

[...]»
in Auto-retrato, João Melo

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