segunda-feira, 12 de março de 2012

“O tédio do fingimento”

F. Scott Fitzgerald ficou na minha lista de autores a ler mais, depois de o ter descoberto em O Grande Gatsby. Assim, li emprestado O Estranho Caso de Benjamin Button, que não gostei tanto como do filme. Comprei na coleção do Público, Terna é a Noite, que ainda aguarda uma oportunidade para ser lido. E recebi de presente Belos e Malditos, cuja sinopse suscitava uma leitura promissora. Posso já dizer que não desiludiu! Belos e Malditos está muito perto da genialidade de O Grande Gatsby. 

Em Belos e Malditos entramos na vida de Anthony Patch e Gloria Gilbert. Ambos têm personalidades bem vincadas. Anthony é um jovem despreocupado e boémio, que não trabalha, nem pretende trabalhar algum dia, mesmo quando se assume como um promissor escritor. Considera o seu modo de vida justo, por isso aguarda pela morte do seu avô doente (um conservador e moralista, que luta contra os vícios, principalmente da bebida) para herdar toda a fortuna. Gloria é uma mulher vibrante, extravagante e principalmente bela. Consciente desta beleza, é extremamente sincera na sua forma de estar na vida: «Quero ser preguiçosa e quero ter pessoas à minha volta a fazer coisas, porque me fazem sentir confortável e segura… e quero ter pessoas por perto que não façam nada, porque são graciosas e boa companhia.» 

O destino acaba por os juntar e o jovem casal, apesar das magras rendas dos seus investimentos, não prescinde de levar uma vida sofisticada. Alugam apartamentos que mal podem pagar, comem em hotéis e restaurantes de luxo, viajam nos melhores carros da época, dançam ao som do fox-trott e do jazz e bebem em festas até cair para o lado. Só que os dias felizes dos primeiros tempos não duram sempre, assim como o dinheiro. A vida louca e superficial dá lugar a discussões e a fragilidades que conduzem à ruína e à decadência. 

«Depois do reflorescer da ternura e da paixão, tinham ambos voltado para um sonho solitário que o outro não partilhava, e as expressões de ternura que trocavam pareciam passar de um coração vazio para outro igual, ecoando em som cavo a partida daquilo que, por fim, compreendiam ter desaparecido.» 

O fulgor da juventude é efémero, a fortuna não há meio de vir parar aos seus bolsos e os amigos deixam de aparecer. Fitzgerald retrata com mestria, os loucos anos 20; tendo como cenário a cidade de Nova Iorque no antes, no durante e no pós I Grande Guerra e o surgimento das restrições da Lei Seca, que são claramente desrespeitadas pelo jovem Patch.

sexta-feira, 9 de março de 2012

«O cerco a Leninegrado»


O Cerco a Leninegrado
estreou o ano passado, no dia 28 de novembro, assinalando assim os 70 anos de carreira da atriz Eunice Muñoz. 

Amanhã, dia 10 de março, é a vez do Cine-Teatro Louletano receber O Cerco a Leninegrado de José Sanchis Sinisterra. Este texto de 1994 é encenado por Celso Cleto e interpretado por duas maravilhosas atrizes, Eunice Muñoz e Maria José Paschoal.


«Teresa, actriz e viúva de um antigo encenador, vive com Natália, outra actriz, nas ruínas de um velho teatro na cidade em vias de ser demolido.

Um texto vertiginoso e uma comédia política, onde o teatro serve de matéria de reflexão à história política dos últimos cinquenta anos.
Os sonhos e as utopias de um mundo melhor estão presentes nesta relação humana de duas mulheres que nunca se renderão.»

Ainda consegui um bilhete, por isso parece-me que a noite de sábado promete!

quarta-feira, 7 de março de 2012

"as artes são muito velhas"

La coleccionista de palabras, Sonja Wimmer, Alemanha

«A poesia será a primeira a morrer. Será absorvida pela prosa, mais cedo ou mais tarde. A palavra bela, por exemplo, a palavra colorida e brilhante e a imagem bela pertencem agora à prosa. Para chamar a atenção, a poesia tem de se esforçar e usar palavras invulgares, palavras fortes e rudes que nunca foram belas. A beleza, como soma de várias partes belas, atingiu a apoteose com Swinburne. Não irá mais além... exceto, talvez, nos romances.
Belos e Malditos, F. Scott Fitzgerald

terça-feira, 6 de março de 2012

3| livrarias e bibliotecas no mundo

Ler Devagar em Lisboa, Portugal

Ler Devagar. Assim nos diz o nome desta belíssima livraria. Situada na Lx. Factory, a Ler Devagar é um espaço, onde o sonho é realmente real. Lá no cimo, a Bicicleta Voadora transporta-nos para o mundo imaginário, quem sabe de tantas histórias já lidas e de outras ainda por descobrir. A beleza daquela imagem faz-nos rodopiar a cabeça sempre que nos deslocamos na livraria. É o querer deslumbrarmo-nos sempre em todos os ângulos. Seja em que ponto estivermos, a Bicicleta Voadora não nos larga o olhar. E é tão bonita! 

As prateleiras intermináveis e apinhadas de livros quase até ao teto, convidam-nos a mirar as lombadas com tantos títulos apaixonantes e a chamarem a nossa atenção para serem levados para casa. Os dedos vão saltando entre um título e outro e selecionando os lidos, os não lidos e os que podem ir, desta vez, na sua companhia. Um cepo largo de madeira, pintado na lombada de amarelo, separa os livros pelas diversas áreas: literatura lusófona, literatura inglesa, literatura francesa, história, sociologia, design, fotografia, entre tantas outras. 


Passo a passo, vamos subindo para o piso de cima onde já nos espera o Sonhador, que sentado no seu monociclo deseja alcançar a Lua. Quem nos conta a estória do Sonhador é o Sr. Pietro, o inventor. Com a sua doce simpatia, o Sr. Pietro encaminha-nos para outras maravilhosas invenções que estão em exposição permanente. Mostra-nos, com um brilho de orgulho estampado no olhar, o funcionamento e a história de cada uma delas. Aqui a imaginação vai até onde os sonhos permitem chegar!

sábado, 3 de março de 2012

Trilho de Piódão

Percurso: Pedestre 
Localização: Piódão, Arganil
Distância aproximada: 1 km 
Duração aproximada: 1 hora
Grau de dificuldade: Médio 

Piódão era o destino. Uma coisa que não mais esquecerei é a viagem até a esta aldeia! Foram  curvas e contracurvas intermináveis! A hora de almoço a passar e a fome apertar, com uma extensão de asfalto a não querer chegar ao fim! Até que contornamos mais uma montanha e no meio do vale nos apareceu, finalmente, Piódão. Surgiu assim, um largo sorriso no rosto, misturado com uma enorme sensação de alívio. Tinha valido a pena viajar só para contemplar aquela paisagem. Antes de descermos à aldeia paramos ainda no cimo da montanha para apreciar o cenário idílico e tirarmos umas fotografias panorâmicas. 

O percurso inicia-se no Largo Cónego Manuel Nogueira, onde se encontra a igreja da aldeia, Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Esta estava em obras de remodelação e faz contraste com as casas de xisto em volta.  Como a fome era mais que muita, fomos primeiro encher a barriga e só depois iniciamos a nossa caminhada pelas ruas, também elas, feitas de xisto. 

O passeio pela aldeia faz-se num instante, mas como o lugar é lindíssimo merece passadas mais vagarosas. Assim, ao voltarmos ao largo, começamos o nosso percurso pelo lado esquerdo, como indicava  a placa dos percursos pedestres. As ruas são estreitas, irregulares e sinuosas, pois ainda mantêm o traçado medieval. Fomos em direção à Fonte dos Algares e depois fomos sempre a subir até à Capela de São Pedro. Sobe-se depois pelas Escadas da Eira e ao chegar aqui, inicia-se o processo de descida. É sempre a descer até avistar-se a Torre Sineira da Igreja Matriz e continuar a descida nessa direção até chegar novamente ao largo do ponto inicial.  

No final do passeio, foi ganhar coragem para voltar a fazer a viagem de regresso, tendo como companhia a Serra.

Próxima paragem: Idanha-a-Velha





quinta-feira, 1 de março de 2012

"Beloved, ela é minha filha"

«... qualquer branco nos podia levar por completo e por qualquer motivo que lhe passasse pela cabeça. Não apenas para nos pôr a trabalhar, matar, ou mutilar, mas também conspurcar. Conspurcar tanto que já não nos podemos amar. Conspurcar de tal modo que nos esquecíamos quem éramos e já não nos conseguíamos encontrar. E embora […] outros o tivessem vivido e ultrapassado, ela nunca poderia deixar que isso acontecesse aos seus filhos. O melhor de si eram os filhos. Os brancos podiam sujá-la, mas não ao que tinha de melhor, a melhor coisa bela e mágica - a parte dela que estava limpa.» 

Depois de A Dádiva - um livro com sabor a delicada poesia e comovente em cada palavra - Beloved foi o livro escolhido para voltar a Toni Morrison. E poderia utilizar as mesmas palavras para descrever este Beloved, que nos confronta com uma dualidade de sentimentos. Vencedor do Prémio Pulitzer em 1988, a obra decorre no Ohio, no pós-Guerra da Secessão. Sethe é uma mulher que tem uma árvore nas costas e que vive atormentada pelo fantasma da primeira filha, Beloved. Denver é a filha mais nova e não tem medo da aparição. Ambas são as únicas residentes do 124; uma vez que Howard e Buglar decidiram fugir para a guerra aos treze anos, após a morte trágica da irmã e da morte da avó Baby Suggs, a única que tinha conhecido a liberdade. Uma liberdade comprada pelo seu filho Halle, marido de Sethe. Só que o 124 recebe uma visita e com a chegada de Paul D, os cenários assumem outros contornos. Este carrega consigo memórias dolorosas, que por sua vez acordam outras memórias cruéis em Sethe. Memórias que conduzem o leitor para o passado comum e para o passado de cada um deles. 

Sethe e Paul D viveram em Sweet Home e nunca sentiram necessidade de fugir até ao dia em que Sweet Home começa a ser administrada por um mestre-escola. No dia da fuga, os seus caminhos tomam destinos diferentes e no dia da chegada de Paul D ao 124 da Bluestone Road, o legado da escravatura de ambos é revelado. As cicatrizes abrem-se. O fantasma de Beloved, que até aqui apenas deambulava pela casa, é expulso por Paul D. Dias mais tarde, o corpo desperta e espera à porta, pelos residentes do 124. A história começa assumir descrições dolorosas e tortuosas e a duplicidade de sentimentos surge. Como é que a monstruosidade dos acontecimentos e dos consequentes atos consegue redimir uma mãe? E quando tudo parece caminhar para a degradação, eis que a esperança renasce no 124! 

Toni Morrison envolve o leitor nesta história cruelmente sofrida, criando “vida a partir da morte”. Não dá para parar de ler!

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