sábado, 17 de setembro de 2011

Trilho "Ross Castle (Ross Island & Lakes)"

«The air was filled with the fragrance of wild flowers, and the eye wherever it turned beheld a region of delight, in which nature seemed to have unlocked all her treasures.»
Lewis Dillwyn

Percurso: Pedestre/Bicicleta
Localização: Parque Nacional de Killarney, Irlanda
Distância aproximada: 5-6 km
Duração aproximada: 1-3 horas
Grau de dificuldade: Baixo

O Parque Nacional de Killarney é feito de trilhos e é dos mais bonitos que conheci na Irlanda. O percurso pedestre iniciou-se dentro dos portões onde se encontram os jardins da Killarney House (EN 71) e terminou nos portões que têm saída para a Saint Mary's Cathedral (Beech Rd). Tanto os jardins como a catedral são uma pequena maravilha de beleza, tranquilidade e silêncio.

O trilho é completamente plano. Ao longo do percurso, um curso de água, do Lough Leane, acompanha-nos bem de perto até chegarmos ao Ross Castle. Mas até lá chegarmos vamos apreciando as pontes velhas, que de onde a onde vão aparecendo, e a densa vegetação, sempre muito verde. Também se encontram alguns bancos rústicos, que nos convidam a sentar e a contemplar os jardins, o horizonte, as montanhas ao longe, ou apenas a fechar os olhos e colocar os outros sentidos em alerta. Neste trilho também encontrámos Chapins-azuis e Corvos. No lago não faltavam Cisnes e Patos-reais, mas o melhor estava reservado para o regresso, onde deparámo-nos com uma família de Veados.

Em pequenas encruzilhadas, somos sempre tentados no caminho a seguir, mas como o nosso destino era o castelo, havia que seguir por essa indicação e deixar as outras à espera por um outro dia. Os pedestrianistas e as carroças turísticas, que seguem o nosso trilho, são alguns, mas os ciclistas são ainda mais! Deixo já aqui registado, que a melhor opção para visitar os parques e os lagos de Killarney é mesmo a bicicleta. Daí que na segunda visita, a esta inesquecível cidade, tenha optado pelo aluguer de uma bicicleta (10€/dia). Nesse dia, pedalei ao ritmo da chuva. E não foi um pedalar solitário, pois a chuva é coisa que não assusta o típico irlandês e muito menos o turista, que está ali com o intuito de aproveitar ao máximo! Mesmo assim, este soube-me a despedida, pois os dias para o regresso a casa já estavam bem próximos.

Ao chegarmos ao nosso destino ficámos maravilhados com o cenário envolvente. Momento de paragem, para aproveitar toda a ambiência e tranquilidade que nos preencheram o olhar e a alma. Na hora de voltar as pernas obedecem mais à vontade de ficar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

o fidalgo da lança

Don, Cosei Kawa, Japão

«D. Quixote enfrascou-se tanto na sua leitura que a ler passava as noites inteiras em claro e os dias cada vez mais na escuridão; e assim, do pouco dormir e do muito ler, secou-se-lhe o cérebro, de maneira que acabou por perder o juízo. Encheu-se-lhe a imaginação de tudo o que lia nos livros, não só de encantamentos como contendas, batalhas, desafios, feridas, galanteios, amores, adversidades e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda a trama daquelas soadas e sonhadas ficções que lia, que para ele não havia outra história mais verdadeira no mundo. [...]
Na verdade, já louco varrido, acabou por ter a ideia mais estranha que até hoje teve um louco no mundo, e foi que lhe pareceu proveitoso e necessário, tanto para aumentar a sua honra como para o serviço da sua república, tornar-se cavaleiro andante, e ir por todo o mundo com as suas armas e o seu cavalo em busca de aventuras e executar tudo o que lera que os cavaleiros andantes realizavam, reparando toda a espécie de ofensas e expondo-se a riscos e perigos, com o que, vencendo-os, alcançasse eterno nome e fama.»
O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

as cores do sentir


Ela não sabia como o tinha deixado entrar. Não sabia quando tudo tinha começado a borboletear dentro dela. Nem sequer sabia se ele tinha realmente entrado! E talvez ele também não o soubesse.
Ela gostava de o ter por perto. Gostava do seu jeito sério de falar, que intercalava com sorrisos tímidos. Oh, como gostava desse seu sorriso! E não conseguia evitar a constante observação, como quem procurava entranhar-se nas minuciosidades das suas palavras. Talvez assim, conseguisse encontrar nas palavras dele o que ainda continuava a procurar nas cores do seu sentir.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"o galo que salvou as gentes dos remorsos"



«Esta é a terra do galo milagroso que depois de assado cantou e veio a ter descendência, tanta que, se ainda não chegou ao milhão, pouco lhe há-de faltar. A história conta-se em palavras breves e não é mais maravilhosa que falar Santo António aos peixes e eles ouvirem-no. Foi o caso que em Barcelos houve, em imemoriais tempos, um crime, e não se apurava quem fosse o criminoso. Deu em caírem as suspeitas num galego [...]. Foi o homem preso e condenado à forca, e antes de ao patíbulo o levarem pediu para ir à presença do juiz que dera a sentença. O tal juiz, se calhar por se sentir muito contente consigo próprio e com a justiça feita, estava comendo do seu bom e do seu melhor, enquanto numa travessa um galo assado esperava o trinchante. Tornou o galego a afirmar-se inocente, com risco de estragar a digestão do juiz e seus amigos, e, em desespero de causa, desafiou todas as leis do mundo e do céu, e garantiu: «Tão certo é estar eu inocente, como esse galo cantar quando me enforcarem.» O juiz, que julgava saber muito bem o que é um galo morto e assado, e não adivinhava de que primores é capaz um galo honrado, largou a rir. Foi uma surriada. Levaram o condenado, continuou o almoço, e, às tantas, quando enfim avançava o trinchante para o assado, levanta-se o galo da travessa, pingando molho e desarrumado as batatas, e lança pela janela fora o mais vivo e repenicado canto de galo que na história de Barcelos se ouvira. Para o juiz foi como se tivessem soado as trombetas do Juízo Final. Levanta-se da mesa, corre ao lugar da forca ainda de guardanapo atado ao pescoço, e vê que também ali haviam funcionado os poderes do milagre, pois o nó se deslaçava, facto que muito espantava os assistentes, vista e provada a competência do carrasco.
O resto já se sabe. Foi solto o galego, mandado em paz, e o juiz voltou ao almoço que arrefecia. Não conta a história qual teria sido o destino do milagroso galo, se foi comido em acção de graças, ou venerado em capela enquanto o tempo lhe não desmanchou a armação dos ossos. O que se sabe, por evidentes provas materiais, é que [...] na figura dos seus descendentes de barro, voltou ao forno para ser mostrado vivo em todas as feiras do Minho, com todas as cores que um galo tem ou podia ter.»
Viagem a Portugal, José Saramago

domingo, 4 de setembro de 2011

fins de verão

Percussão, Serafim, Portugal


«A arte, mais do que uma imagem pintada numa tela, é a forma como essa imagem toca o coração de quem a olha.»
A Trança de Inês, Rosa Lobato de Faria

terça-feira, 30 de agosto de 2011

"possibilidade do fim da Razão"

"«[...] vivi durante muitos anos aferrado à crença de que, apesar de umas tantas contrariedades e contradições, esta espécie de que faço parte usava a cabeça como aposento e escritório da Razão. Certo era que o pintor Goya, surdo e sábio, me protestava que é no sono dela que se engendram os monstros, mas eu argumentava que, não podendo ser negado o surgimento dessas avantesmas, tal só aconteceria quando a razão, pobrezinha, cansada da obrigação de ser razoável, se deixava vencer pela fadiga e mergulhava no esquecimento de si própria. Chegado agora a estes dias, os meus e os do Mundo, vejo-me diante de duas possibilidades: ou a razão, no homem, não faz senão dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, é, também, o mais irracional entre todos eles»"
Biografia José Saramago, João Marques Lopes

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