Devo confessar que estou com uma enorme expectativa para ver a adaptação para cinema do romance de Donna Woolfolk Cross, A Papisa Joana. Ao que parece esta produção alemã de Soenke Wortmann está muito boa!
Enquanto aguardo pela estreia, 16 de Setembro, aproveito para vos falar do livro. Este romance histórico passa-se no Século IX e fala sobre a vida de Joana, uma mulher que ascendeu ao mais alto cargo da igreja católica. Para uns esta personagem foi histórica e para outros apenas lendária, sendo até considerada fictícia para a maioria dos historiadores! O que é certo é que a história não deixa de ser curiosa e apaixonante e sinceramente não vejo mal algum em ter existido na História episcopal uma Papisa. Por isso, acredito que esta foi mais uma das que foram ocultadas pelo poder papal.
A Papisa Joana é um livro envolvente, que depois de começado já não dá mesmo para parar. Toda a descrição da época e a forte caracterização da personagem principal deixa-nos como que ansiosos por querer saber aonde tudo irá terminar.
Joana é filha de um inflexível cónego inglês e de Gudrun, uma mulher que foi obrigada a converter-se ao catolicismo e a deixar para trás as suas raízes saxónicas. Para além disso tem dois irmãos mais velhos, Mateus e João.
Desde tenra idade que Joana se vê obrigada a passar por grandes privações e dificuldades, pois a época não era propícia para as mulheres. Assim, até chegar à idade adulta teve sempre de lutar para se afirmar e conseguir tudo aquilo que mais queria, aprender a ler e a saber cada vez mais. Só que a instrução estava vedada às mulheres e Joana não encontrou outra forma senão ir aprendendo às escondidas, ora com a ajuda do irmão Mateus, ora sozinha e mais tarde com Asclépios, um grego que passou a ser o seu tutor, contra a não muita vontade do pai, que preferia que esta instrução fosse dada apenas ao seu irmão João, já que Mateus tinha morrido.
À medida que vai adquirindo mais conhecimento, Joana vai também ela colocando em causa muitas questões, incluindo as suas crenças e Deus. Numa época onde uma mulher apenas podia aspirar a ser esposa e mãe, Joana não aceitava, nem se conformava com uma vida assim! Aliás era até uma péssima fada do lar! Com a sua persistência consegue também ela, e não só o seu irmão João, um lugar na Escola da Catedral. E é aí que conhece o amor, Geraldo, o conde de Villaris. Só que entretanto a sua vida segue outro caminho e Joana passa a viver sob o disfarce de um monge, João Anglicus. Apercebe-se que passando a viver como homem seria livre para agir e pensar. Dedica-se então à arte medicinal e é através desta arte, que chega a Roma. Aí passa a conviver de perto com o poder, a intriga, o fanatismo, a intolerância e a conspiração, mas Joana continua firme e fiel às suas convicções.
«A incongruência do altar sagrado e da sua base pagã pareceu a Joana um símbolo perfeito da sua própria condição: padre cristão, continuava a sonhar com os deuses pagãos da sua mãe; um homem aos olhos do mundo, era atormentada pelo seu coração secreto de mulher; em busca da fé, vivia dividida entre o desejo de conhecer Deus e o medo de que Ele não existisse. Mente e coração, fé e dúvida, vontade e desejo. Será que as dolorosas contradições da sua natureza alguma vez se resolveriam?»
Tudo vai acontecendo rapidamente até ao momento que Joana, como João Anglicus, é eleita Papa, no ano 853. Mas o amor por Geraldo, que a reencontra e acompanha entretanto, acaba por atingir contornos inesperados e as coisas podem terminar de maneira diferente. O melhor mesmo é descobrirem esta «mulher brilhante que não aceita as limitações que a sua época, profundamente misógina, lhe impõe e, armada de uma inteligência esclarecedora e de uma força de carácter inquebrantável, conquista o mais elevado poder religioso.»
Um poderoso romance histórico, com uma personagem, sem dúvida alguma, memorável!
Refiro ainda que gostei muito das explicações finais da autora, pois esclarece muitas das dúvidas que entretanto me foram surgindo ao longo da leitura.


As Fogueiras da Inquisição é um romance histórico que tem como pano de fundo o Portugal do século XVI. Na época reinava D. João III e a pedido deste é instituída em 1536 a Inquisição em Portugal. Mas através das memórias de Sara de Leão, a protagonista desta saga familiar, a história vai um pouco mais atrás. Regressamos então ao reinado de el-rei D. Manuel I e ficamos a conhecer a história da avó de Sara, Ester Abecanar, a partir dos seus quatro anos de idade. Esta vivia na Judiaria de Lisboa com o seu pai Samuel Abecanar, que é físico e a sua ama Rana. Só que com a publicação do édito de expulsão dos judeus, Ester é obrigada a baptizar-se de Ester Baltasar. Nasceram assim os cristãos-novos. Mas os tempos não deixaram de ser difíceis e conturbados. Em Espanha, de onde tinham fugido, já estava estabelecida a Inquisição e os sefarditas e cristãos-novos continuavam a viver no medo e a não se sentir totalmente seguros.