segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Ensaio 2| A Utopia do direito à Preguiça

Será então que num mundo obcecado pelo consumismo e pelo trabalho, já não temos direito à Preguiça?

Num lado da balança temos os que tentam demonstrar como a Preguiça está nos alicerces do indivíduo. Onde a máquina um dia chegará para o libertar das tarefas e assim, finalmente o indivíduo poderá gozar o tão desejado tempo para a liberdade e para o espírito.
No outro lado temos os que defendem que o mundo está para o progresso, como o progresso está para o mundo e que para lá chegar é necessário muito sacrifício e trabalho árduo.
O Pensador, de RodinO Pensador, a famosa escultura de Rodin, conduz-nos para os grandes momentos da criação artística e do pensamento filosófico. Na Grécia Clássica foi exactamente o uso do tempo livre dedicado ao ócio que definiu os fundamentos da cultura, da ética e da moral ocidental. Nessa época, porém, o pleno gozo do lazer era um direito de poucos. No tempo de Péricles a sociedade ateniense era composta por homens livres. No entanto, o tempo liberto para o ócio e a criação só era possível graças ao trabalho dos escravos.
Também a antiga expressão: «dolce far niente» é tão conhecida quanto mal interpretada, pois a mesma nunca significou um convite à preguiça ou à apatia. Esta é antes uma invocação para o aproveitamento da vida, para o recompor do espírito especulativo e, implicitamente, o aliviar da tensão do trabalho, sobretudo o intelectual.
Claro que nesta luta pela Utopia do direito à Preguiça teremos sempre utópicos ou não.
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Continua...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

"Um balde...

Bucket ... é também um ponto de partida para as histórias que se querem contar..."

O Teatro da Palmilha Dentada apresenta esta quinta-feira, pelas 21h30, no Teatro Lethes em Faro, a peça Bucket, com texto e encenação de Ricardo Alves.

"Um balde divide o mundo.
Havendo um balde, há o que está dentro e o que está fora.
De pernas para o ar é um banco.
Com um pé dentro é um gag antigo.
Empilhados, uma torre.
Numa loja de cristais é um erro, na construção civil uma constante, se tiver um furo é inútil, se tiver muitos, dependurado num ramo de árvore, é um chuveiro. Há baldes que são dois, meio balde de detergente, meio balde de água limpa. Alguns têm tampa, alguns têm rodas, quase todos têm asa. Transportam água, guardam o leite. É um balde, foi à lua e voltou cheio de pedras lunares.
E se um dia nos faltarem?"

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ensaio 1| A Utopia do direito à Preguiça

Mapa da ilha imaginária de Thomas MoreMapa da ilha imaginária de Thomas More

Sempre que penso neste tema viajo até à ilha imaginária de Thomas More onde cada indivíduo trabalhava e executava as tarefas úteis e essenciais na ilha e entre as mesmas ocuparia o seu tempo livre como bem o desejasse. O tempo do ócio seria finalmente atingido para pensar livremente.
Presentemente o trabalho ocupa a maioria dos indivíduos, inclusive até aqueles que tentam dedicar-se a actividades ligadas à meditação. Assim, a Preguiça, ou até mesmo o ócio, enquanto actividade criativa é hoje considerada uma afronta aos poderes. Vivemos no apogeu do capitalismo e da globalização. Nunca o indivíduo ficou sem tempo para si como actualmente.
Será então que num mundo obcecado pelo consumismo e pelo trabalho, já não temos direito à Preguiça?
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continua...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

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Florença
"A caminho daqui vi coisas maravilhosas para pintar, mas nunca soube pintar. Sei de coisas maravilhosas para escrever e nem sequer consigo escrever uma carta que não seja estúpida. Nunca quis ser pintora nem escritora até chegar a este país. Agora, é como estar-se sempre esfomeado e não haver maneira de o remediar."
O Jardim do Éden, de Ernest Hemingway

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

«Wall-E»

Wall-E O filme de animação mais criativo e divertido que vi neste Verão!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Regresso aos livros

Não tenho falado de livros... A verdade é que não tenho escrito sobre nada… Nem de livros, nem de coisa nenhuma! Os dias têm estado azulados para estes lados do sul e os mergulhos no mar (confesso que gosto ficar de molho como o bacalhau) têm sido mais frequentes do que a vontade de escrever. Têm sido quase como um prolongamento das férias.
Até tenho-me dedicado imenso aos livros, mas mais na vertente da leitura. Aliás acho que nunca tinha lido tanto num curto espaço de tempo! Treze livros em três semanas. Rabisquei em quase todos eles. Sim, porque eu tenho o hábito de rabiscar nos livros. Ainda não vos tinha dito? Talvez seja tique ou apenas uma forma de deixar a minha presença neles…
Não sei se falarei de todos eles por aqui, mas sei que hoje vou escrever sobre um: Paula.

“Sou o vazio, sou tudo o que existe, estou em cada folha do bosque, em cada gota do orvalho, em cada partícula de cinza que a água arrasta, sou a Paula e também sou eu própria, sou nada e tudo o resto nesta vida e noutras vidas, imortal.”

PaulaIsabel Allende é a autora do livro. Considero-o como um diário, uma vez que a autora escreveu sobre a sua filha Paula, uma jovem de 28 anos que adoece e entra em coma. Durante o coma, Isabel Allende decide escrever à sua filha, pois acredita que ela irá acordar e como ela diz, “quando despertares não te sentirás tão perdida”. Contudo, a morte de Paula é um facto e o leitor quando parte para a leitura da história, da família Allende, já o sabe. Por isso, Paula é um livro carregado de dor, mas também de libertação. A libertação de uma mãe que encontra nas palavras que escreve uma terapia ou talvez um exorcismo salvador, que de outro modo seria insuportável.
Ao ler as suas palavras foi como se o sofrimento da família Allende estivesse a entranhar-se em todos os meus poros. Houve momentos em que tive mesmo de parar durante largas horas para recuperar forças, pois é mesmo um relato cru que envolve e comove. Boas leituras!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

"Brinquedo"

Ilustração de Chantal Muller Van der BergheIlustração de Chantal Muller Van der Berghe

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.


Miguel Torga, Diário I, 1941

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