Quando morreres chorar-te-ei a valer. Aproximar-me-ei do teu rosto para beijar com desespero os teu lábios num último esforço, cheio de presunção e de fé, para te devolver ao mundo que te terá relegado. Sentir-me-ei ferido na minha própria vida, e considerarei a minha história partida em dois por esse teu momento definitivo. Fecharei os teus renitentes e surpreendidos olhos com mão amiga, e velarei o teu cadáver esbranquiçado e mutante toda a noite e a inútil aurora que não te terá conhecido. Com estas três passagens dou-vos a conhecer pequenos instantes do livro O Homem Sentimental, de Javier Marías.
Um cantor de ópera, conhecido como o Leão de Nápoles é o narrador desta entusiasta história de amor. No início, o cantor questiona-se se deverá contar os seus sonhos. No entanto, acaba por descrever o seu sonho daquela manhã. Numa das suas visitas a Madrid para interpretar o Otelo de Verdi vê-se envolvido por uma mulher casada, Natalia. Manur, o marido, arranja-lhe um acompanhante, "o imperturbábel senhor Dato", para a entreter em todas as horas do dia. E são estes quatro personagens que dão corpo a este envolvente sonho ou talvez realidade! Onde o verdadeiro "homem sentimental" parece ser o artista, mas que no final talvez seja o banqueiro!
Para o autor, «O Homem Sentimental é uma história de amor na qual o amor não se vê nem se vive, mas que se anuncia e recorda». E pergunta-se: «Pode isto acontecer?»


