domingo, 6 de abril de 2008

O artista ou o banqueiro?

O Homem SentimentalQuando morreres chorar-te-ei a valer. Aproximar-me-ei do teu rosto para beijar com desespero os teu lábios num último esforço, cheio de presunção e de fé, para te devolver ao mundo que te terá relegado. Sentir-me-ei ferido na minha própria vida, e considerarei a minha história partida em dois por esse teu momento definitivo. Fecharei os teus renitentes e surpreendidos olhos com mão amiga, e velarei o teu cadáver esbranquiçado e mutante toda a noite e a inútil aurora que não te terá conhecido.

Com estas três passagens dou-vos a conhecer pequenos instantes do livro O Homem Sentimental, de Javier Marías.
Um cantor de ópera, conhecido como o Leão de Nápoles é o narrador desta entusiasta história de amor. No início, o cantor questiona-se se deverá contar os seus sonhos. No entanto, acaba por descrever o seu sonho daquela manhã. Numa das suas visitas a Madrid para interpretar o Otelo de Verdi vê-se envolvido por uma mulher casada, Natalia. Manur, o marido, arranja-lhe um acompanhante, "o imperturbábel senhor Dato", para a entreter em todas as horas do dia. E são estes quatro personagens que dão corpo a este envolvente sonho ou talvez realidade! Onde o verdadeiro "homem sentimental" parece ser o artista, mas que no final talvez seja o banqueiro!
Para o autor, «O Homem Sentimental é uma história de amor na qual o amor não se vê nem se vive, mas que se anuncia e recorda». E pergunta-se: «Pode isto acontecer?»

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O segundo despertar

«Li uma vez num livro de um alemão que as pessoas que não tomam o pequeno-almoço desejam evitar o contacto do dia e não entrar nele, porque na realidade é só através do segundo despertar, o do estômago, que se consegue sair totalmente da penumbra e da esfera nocturna, e é só depois de ter chegado são e salvo à outra margem que uma pessoa pode dar-se ao luxo de relatar o sonhado sem que isso traga calamidades, já que, se o conta em jejum, ainda está sob o domínio do sonho e atraiçoa-o com as suas palavras, expondo-se assim à sua vingança.»
O Homem Sentimental, de Javier Marías

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sonhos inacabados

Os meus sonhos
«Não sei se vos conte os meus sonhos. São sonhos velhos, fora de moda, mais próprios de um adolescente que de um cidadão. São simultaneamente prenhes de episódios e precisos, um pouco vagarosos ainda que de grande colorido, como os que poderia ter um alma fantasiosa mas no fundo simples, uma alma muito organizada. São sonhos que acabam por cansar um pouco, porque quem os tem acorda sempre antes do seu desenlace, como se o impulso onírico se esgotasse na representação dos pormenores e de desinteressasse do resultado, como se a actividade de sonhar fosse única ainda ideal e sem objectivo. Não conheço, por isso, o final dos meus sonhos, e pode revelar desconsideração relatá-los sem estar em condições de oferecer uma conclusão ou um ensinamento.»
O Homem Sentimental, de Javier Marías

terça-feira, 1 de abril de 2008

As seis melodias

A menina Su desafiou-me a revelar os meus gostos musicais.
É um daqueles desafios complicados, pois só posso seleccionar seis músicas e ao fim de quase trinta anos, tantos foram os sons que preencheram os meus dias, que nem sei bem por onde começar...

Abelha Maia
Fez parte da minha infância e terá sempre um sentido para mim.

Anzol, Rádio Macau
E nem tenho de explicar porquê.

The show must go on, Queen
Anima-me sempre que a oiço!

Where The Wild Roses Grow, Nick Cave & Kylie Minogue
Gosto especialmente de Nick Cave.

Nocturna, Afonsina Tuna de Engenharia da Universidade do Minho
É lindíssima! Não me canso de a ouvir e de a cantar apesar de desafinar imenso!

Nona Sinfonia, Beethoven
Passou a fazer parte dos meus dias!

Não, não se assustem, porque não vou passar este desafio a nenhum de vós! Desta vez fica para quem o quiser agarrar!

sexta-feira, 28 de março de 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008

"A Última Fome"

A Última FomeMarço já está na sua recta final, mas aproveito ainda para dedicar algumas linhas ao livro do mês. Hoje escrevo sobre este magnífico livro de ficção científica. Devia ter uns dezasseis anos quando li A Última Fome. Naquela altura era uma perdida por livros de ficção científica. Agora já não sou tãaaao perdida, mas ainda os leio.

A fome não era o único horror num mundo a caminhar para o apocalipse…
Roger olhou em frente: «O exército está a deslocar-se para posições nos arredores de Londres e de todos os outros grandes centros populacionais. A partir da madrugada de amanhã , as estradas estarão fechadas.»
John disse: «[…] Nenhum exército do mundo pode impedir uma cidade de romper todas as barreiras sob a pressão da fome. Que espera o Governo ganhar com isso?»
«Tempo. O suficiente desse bem precioso para completar os preparativos da sua segunda linha de acção.»
«E essa linha de acção é…»
«Bombas atómicas para as cidades pequenas, bombas de hidrogénio para locais como Liverpul, Birmingham, Leeds, duas ou três para Londres. Não interessa economizá-las, pois não serão necessárias num futuro próximo.»


Tudo começa com um vírus, Chung-li, que destrói todos os cereais que constituíam a base da alimentação humana. Milhares de pessoas começam a morrer à fome. Inevitavelmente, cidades inteiras começam a ser pilhadas. Os motins causam mais mortes. Tudo é destruição. No limite da fome, as pessoas esquecem rápido o mundo da civilização e transformam-se em autênticos canibais. Impera a lei da sobrevivência.
No meio deste inferno todo em que o Governo determina a extinção da raça humana, existem alguns grupos que lutam e procuram alternativas ao canibalismo. É nesta luta que surge a tão esperada solução. E são eles, como únicos sobreviventes ao inferno, que têm “uma cidade para construir”.
E foi com este pequeno cenário que o autor John Christopher conseguiu criar um mundo de horror. Ainda me lembro de ter passado a noite quase toda em claro, no dia em que acabei de ler o livro.

segunda-feira, 3 de março de 2008

as pé-ta-las do teu nome

as pétalas do teu nome«pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurrado pétala a pétala
letra a letra uma flor desfolhada na terra»

a criança em ruínas, de José Luís Peixoto

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