"A luz da manhã não sente os vidros limpos da janela no momento em que os atravessa, pousando depois nas notas de piano que saem da telefonia e flutuam por todo o ar da cozinha."
José Luís Peixoto é um dos meus escritores portugueses de eleição. Não só pela sua escrita, mas também pela pesssoa simples e simpática que demonstra ser em presença com o seu público. Cemitério de Pianos é a sua mais recente obra e narra a história de uma família. Os avós, os pais, os filhos, os irmãos, os netos, os tios, os sobrinhos e os primos todos eles são talvez teclas de piano suspensas na vida.
Os dois personagens, pai morto e filho vivo, contam-nos, em tempos diferentes e ao longo das 314 páginas, a vida e a morte, as paixões e as traições, as frustrações e a violência doméstica, as alegrias e as tristezas da família.
O cemitério de pianos reside numa carpintaria e é o palco central. Nele há lugar para os amores e traições, para as leituras escondidas, para as brincadeiras e conversas com o narrador pai.
É uma história doce, preenchida de afectos e tristezas, que li em três actos. No primeiro devorei 100 páginas e deparei-me com um pai morto e os seus sentimentos de culpa.
No segundo, encontrei 162 páginas de maratona. Um filho vivo, que deposita as suas esperanças e os seus pensamentos inacabados em 30 quilómetros de maratona e que vai ter com um pai morto.
E no terceiro, entra novamente o pai para confirmar a morte do seu filho.
Um livro recheado de páginas ternurentas, que foram "como partituras sob os [m]eus olhos".