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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Voo

Ria Formosa, Faro

Por vezes é bom partir,
para poder regressar.

sábado, 9 de outubro de 2010

O guardador de sonhos

ilustração: phermad

Ainda não sei bem o que vos vou contar… Caminho sozinho no infinito azul há milhares de anos. Sinto-me como um prisioneiro dos sonhos. Talvez por isso me chamem o guardador de sonhos! Dizem por aí que guardo os sonhos do mundo! Sonhos que chegam até mim de todos os tamanhos e feitios. Sonhos que carregam a fé dos Homens. Sonhos que não estão em mim, porque não me pertencem. Sim, talvez seja um guardador de sonhos! No entanto, entristece-me saber que guardo os sonhos do mundo, mas não me posso permitir sonhar.

Dizem que existo, porque eles lá em baixo não se cansam de sonhar. Sonham, sonham e sonham! Sonham despertos e enquanto dormem. São uns sonhadores famintos!
Os meus dias são uma correria desenfreada, pois os sonhos não me dão o divino descanso! Estão sempre a chegar. Talvez não saibam, mas os sonhos são pedaços de Céu. Pedaços de Céu que eu cuidadosamente coloco neste infinito azul incompleto. E digo incompleto, porque por vezes chega o dia em que os sonhos deixam de ser sonhos. Nesse dia, pedaços de Céu soltam-se, entram em negras nuvens e descem à Terra sob a forma de pingos de chuva.
Nesse dia, enquanto os pingos de chuva se deixam cair, observo os sonhadores a escapar aos seus sonhos. Tapam-se da cabeça aos pés. Abrem objectos estranhos para se protegerem. Correm. Tssss… São uns cegos! Apenas os chamados tolos se deixam alimentar por eles.
Ah! Lamento, mas por agora não vos posso contar mais, pois a mim, apenas me chamam o guardador de sonhos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As letras


Bix Text Generator, Sevens Heaven, Holanda

As suas mãos delicadas tocaram as minhas e de sorriso no rosto pergunta-me:
- Susana vens para o meu quarto ajudar-me a fazer os trabalhos de casa, enquanto a minha mãe fica aqui na cozinha?
- Vou sim, Raquel. Trouxeste muitos deveres para fazer?
- Trouxe a letra A. Sabes tenho que a escrever várias vezes! Estás a ver esta folha com estas linhas? Tem de ficar tooooda cheia!
- Queres ajuda para o primeiro A?
- Siiim. Ajudas-me?
- Dá-me a tua mão. Começas aqui em cima na linha, depois tocas na linha de baixo, sempre em forma redonda vais subindo até fechar. E agora só falta a perninha do A. Vês é fácil! Vá agora faz sozinha.
(E nesse pequeno instante os meus pensamentos voaram para os dias da minha infância, para aquele momento em que a minha mãe pegou na minha mão para me ajudar a escrever o A naquele caderninho de linhas estreitas, concebido especialmente para aprender a escrever as letras).
- Susana! Susana, está bem?
- Hum, Raquel... Sim estás a sair-te bem.
Mas ela pára a sua tarefa, coloca as mãos na cintura e de olhos muito esbugalhados questiona-me com um ar muito sério:
- Mas está perfeito, Susana? É que tem de estar PERFEITO! A minha mãe gosta de tudo per-fei-to!
___________________
Dia Internacional da Alfabetização

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um livro

Late Night Reading, Eenuh, Bélgica

Um livro. Um livro que ao primeiro olhar a encanta ao ponto de andar consigo para todo o lado como se de um amuleto se tratasse! Ou então não! Nem lhe causa impressão. Fica perdido e esquecido numa estante poeirenta até as suas folhas brancas deixarem de o ser.

Um livro. Um livro que contem imensas palavras e que estas, juntas, constroem grandes estórias. É certo que ela sempre gostou de palavras. Talvez por isso nunca se imaginou a não gostar de livros. Para ela, as palavras emanam poder! Têm aquela sonoridade doce e acre. Carregam em si uma força interpretativa e sentida. Ela gosta de as soletrar len-ta-men-te para melhor entranhá-las na pele e na alma. Mas também gosta de as so-le-trar rapidamente até lhe soarem a estranho, até lhe soarem a novas palavras, até já não lhe quererem dizer nada daquilo que inicialmente diziam.

Um livro. Um livro que a transporta para desconcertantes realidades e sentimentos. Por entre as suas páginas, deixa-se perder até altas horas por ter receio de que se as deixar, elas podem fugir, podem já lá não estar quando de novo voltar a elas. E como seria depois? Como seria não as encontrar? A sua vida continuaria imutável ou deixaria de ser igual? Não, não pode correr esse risco! O melhor mesmo é criar os seus monstros e os seus heróis no negrume da noite. Submergir nas palavras e não regressar enquanto não chegar à última frase, à última palavra, ao último ponto final.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O contador de histórias


Não sou um bom contador de histórias, porque enquanto acordado, as palavras não são escritas como as que passam frente aos meus olhos. Sempre gostei das palavras, é certo. Só que as palavras não me obedecem! Não se deixam usar a meu bel-prazer e fazem troça das minhas enormes mãos que insistem em escrevê-las.
Quando a noite chega torturam-me. Adoram a noite e em noites de luar chegam mesmo a enlouquecer-me! Deixam-me sem vontade própria e apoderam-se de todos os meus dedos da minha mão direita. Nesses meus momentos lúridos, vejo outras palavras que se enterram em mim e deixo de ser quem sou. Já não sou eu quem as escreve, mas sim a minha mão, em obediência a elas. Expele palavras esquizofrénicas e exprime os meus sonhos não sonhados.
Enquanto contador de histórias noctívago e entorpecido escrevo imensas palavras, vezes sem conta em pedaços de papel, que deixo esquecidos pelos recantos desta casa, que já nada me diz… Das vezes que as escrevo nada de significativo encerro nelas.
Cedo, no meu despertar, nada reconheço como sendo as minhas palavras!
Nos meus longos dias levo uma vida solitária de mau contador de histórias, porque tento aprisionar as palavras sombrias que me perseguem. Só que elas, as palavras, martelam nos meus pensamentos dia após dia. E mesmo exaustos, os meus pensamentos não se deixam adormecer, porque elas, as palavras, arrastam-mos para o abismo. Por vezes tento sufocá-las, mas elas agitam-se e em louco atropelo insistem em sair. E quando a noite chega, já cansado, acabo por as deixar escapar. Deixo-as partir para outras folhas vazias.
Cedo, no meu despertar, procuro encontrar em cada palavra escrita o meu eu de contador de histórias, enquanto acordado.

sábado, 10 de julho de 2010

É hoje... :) "Just Breathe"



Com lotação esgotada, o Alive 2010 esteve ao rubro com 45 mil pessoas. Os Pearl Jam eram os cabeça de cartaz e sem dúvida os mais aguardados! E eu que pela primeira vez iria poder vê-los ao vivo não estava em mim! Há momentos que são mesmo únicos e memoráveis e este ficará com certeza naquele cantinho tão especial do sentir.
O povo entrou em delírio assim que Eddie Vedder pisou o palco. O concerto fechava a tournée europeia e pelas palavras de Eddie seria também o último, pelo menos por algum tempo. O público não gostou, mas Eddie disse que isso seria bom, pois era hora de divertirmo-nos agora já que não sabíamos quando é que podíamos voltar a repetir este momento juntos.
O concerto durou para lá das duas horas e o público entusiasta estava incansável e não queria dar o concerto por terminado! Eram os braços no ar, eram as palmas, era o entoar das vozes ao som de cada música, eram as máquinas fotográficas para registar cada momento, eram os ouvidos muito atentos para escutar o português de Eddie. "Português é muito difícil" disse Eddie recorrendo à sua cábula.
Foram muitas as palavras que trocou com o público em português e estas eram sentidas em cada palavra. Eddie não se cansou de elogiar o público português: "São o público que melhor canta no mundo". Chegando até a cantar uma música cujo refrão era "Portugal, Portugal". Era mais um ponto alto nas emoções, que continuavam à flor da pele, tanto no público, como no próprio Eddie Vedder.
Eddie despediu-se dos seus fãs de bandeira portuguesa às costas, garrafa de vinho na mão e cigarro entre os lábios. E com a saída dos Pearl Jam do palco, a grande maioria do público também desapareceu.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

«A Maior Flor do Mundo» para Saramago



Não mais conhecerei outro autor como José Saramago. O Nobel da Literatura faleceu hoje, aos 87 anos e Portugal ficou mais pobre. Eu fiquei mais pobre. Mais vazia. Sinto-me triste.
Foi com Memorial do Convento que tive o primeiro encontro com a sua escrita e depois de conhecer o amor de Baltasar e Blimunda, que amor igual jamais encontrarei em obra alguma, não mais pude deixar de ler as suas estórias.
Continuei com Todos os Nomes, onde Saramago deu-me a conhecer o Sr. José, um personagem muito peculiar que coleccionava nomes e outras obras se seguiram... O Evangelho Segundo Jesus Cristo, A Viagem do Elefante, A Maior Flor do Mundo, A Jangada de Pedra, Ensaio sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis e Caim foram livros que continuaram a fascinar-me e a surpreender-me com a sua extraordinária capacidade de contar histórias.
Sei que continuarei a descobrir as suas estórias de interrogação à História de Portugal e de inquietação e que estas ficarão guardadas no meu lado esquerdo do sentir.

domingo, 27 de dezembro de 2009

“As cidades e os olhos”

Clear Bubble. Fotografia de richard.heeks.

Grão Kan manda chamar Marco Polo e pede-lhe para descrever uma nova cidade…

Para conhecer Sana é imprescindível a arte do pulo. Só assim é possível entrar na cidade, pois perder o instante é ficar na linha de partida como o viajante que apenas vê passar comboios.
Sana é uma cidade bola de sabão, que tudo vê. Onde não se percorrem ruas, nem calçadas. Flutua-se.
Através de Sana, vislumbra-se ao longe as outras cidades invisíveis, mas não é permitido vê-la pela íris do viajante. A cidade deixa-se ver em outros olhos.
A lua aparece nas manhãs sob o céu azul e o sol brilha nas noites, por baixo do lençol de mar.
Em Sana o tempo é irrelevante. A passagem não se dá entre os vivos e os mortos.
As casas são de madeira e encontram-se penduradas por molas em fios de lã multicolor. O solo é coberto por um largo braço de mar, que esconde as ruínas da cidade e as cidades que no futuro serão Sana.
Puff! Assim rebenta a cidade e o viajante pode continuar o seu caminho. Logo o vento sopra por baixo do largo braço de mar, que se espalhou pela terra e uma nova cidade de Sana toma forma. Esta sobe bem alto para trilhar outras viagens, outras vidas.
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Baseado no livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Girafas!

Lisboa: Jardim Zoológico
Há animais que encantam pelas mais diversas razões. Assim, há quem goste de cães ou de gatos, de golfinhos ou de focas, de avestruzes ou de camelos, de macacos ou de elefantes, de aranhas ou de formigas, de mochos ou de águias, de crocodilos ou sei lá mais o quê!
Eu adoro girafas, abelhas e gaivotas!
Abelhas, porque em miúda os meus caracóis (que já não existem) foram motivo para a famelga me chamar de Abelha Maia. Daí sempre tive uma enorme afinidade com estes insectos que polinizam dez flores por minuto.
Gaivotas, porque é em terras algarvias que as vejo a chegar e a partir, como as ondas do mar.
E as Girafas!? Pois as girafas... Finalmente as vi e ao vivo ainda são mais engraçadas!! O porte esbelto, a textura da pele, as pernas esguias e o longo pescoço, que tal como nós é composto por sete vértebras, sempre foram motivo para lhes achar imensa piada! Mas não me poderia esquecer da sua inigualável língua azul, que seria motivo mais do que suficiente para me conquistarem!
E ali fiquei eu no Jardim Zoológico de Lisboa (que só agora tive oportunidade de conhecer e para 125 anos de existência estão em excelente forma!) a observá-las com olhar de parola (com toda a certeza), a tirar-lhes imensas fotografias para mais tarde recordar e já nem queria ver mais animais, porque elas, as girafas já me tinham alegrado a manhã e o dia longe delas já não fazia até muito sentido.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Gôndolas e gondoleiros

Gondoleiro de Veneza
Não fazia propriamente parte do itinerário, mas a simpatia de “Giácomo” foi o pretexto para aceitarmos o convite e embarcarmos na gôndola que nos levaria a desfrutar dos imensos canais de Veneza numa outra perspectiva.
Já de partida em direcção ao Grande Canal, Giácomo confidencia-nos que é gondoleiro, pois o seu pai e o seu avô também o são. E porque já os seus antepassados o eram. Pertence a uma das famílias antigas de Veneza e sente orgulho em ser gondoleiro.
O percurso escolhido avista-se bastante estreito e àquela hora o tráfego de gôndolas é constante, o que obriga a algumas manobras esforçadas. Um pé aqui nesta parede, outro acolá naquela e pronto podemos continuar.
Giácomo sorri e, enquanto se baixa para passar por mais uma ponte, vai assobiando melodias. Entre uma música e outra, Giácomo conta-nos histórias da sua Veneza, que nós agora, aqui escrevemos.
Há uns séculos atrás, as gôndolas apenas transportavam a realeza e as famílias nobres de Veneza. Estas eram pintadas de verde, azul e amarelo. De vermelho, de roxo e laranja. De castanho ou de rosa, se assim fosse a vontade do gondoleiro. Havia gôndolas de todas as cores!
Mas um dia a cidade foi invadida pela peste e esta levou com ela milhares de venezianos. Após aquele ano fatídico, os gondoleiros assinalaram o seu luto pintando as suas gôndolas de negro.

Gôndolas de Veneza
Paradas no Grande Canal, as gôndolas espreitam os turistas e aguardam mais uma viagem.

sábado, 20 de junho de 2009

Turquia era o destino

Vista panorâmica de Istambul
Ao meio-dia, Istambul esperava-nos com um sorriso. Bem-vindos! (Hos geldiniz!) Tínhamos acabado de pisar chão asiático e preparávamo-nos para fazer uma viagem de três horas até ao lado europeu. A música envolvia-nos e parecíamos saídos de uma cena de filme. Não havia regras na estrada. Faixas de rodagem existiam, mas é como não estivessem lá. Os sinais de sentido proibido em Istambul devem com certeza ter outro significado! As ultrapassagens tanto podiam ser pela esquerda, como pela direita. Era de quem chegava primeiro. Passadeiras, o que é isso!? O pensamento já ia longe e só pensávamos em chegar vivos ao destino.
Imaginem só que Istambul é uma cidade tão grande que até o povo local se perde, pois foi com alguma dificuldade que chegámos a Kumkapi, local onde se encontrava o nosso hotel.

As mesquitas começavam a chamar para a oração e a nossa euforia era tanta que mesmo estafados só queríamos era conhecer, conhecer e conhecer. A primeira paragem foi mesmo o Grande Bazar (Kapaliçarşi). Ruas e mais ruas de lojas sem fim à vista. Os comerciantes tinham sempre um sorriso no rosto e para eles éramos sempre espanhóis! Encontrámos um povo aberto, de uma simpatia natural e pronto para receber bem.
Nas ruas havia uma mistura de tudo. Os contrastes ressaltavam mais nas mulheres. Ora víamos mulheres quase despidas, ora só com os olhos à mostra. E com o calor que se fazia sentir até nos causava impressão! Connosco andava sempre uma garrafa de água para refrescar a garganta, porque a temperatura era de 35º à sombra.

No segundo dia, percorremos as ruas de Sultanahmet, onde se encontra o Hipódromo e o Obelisco Egípcio. Fomos conhecer a Mesquita Azul (Sultanahmet Camii), que é imponente e maravilhosa tanto no interior, como por fora.
Em frente esperava-nos a Mesquita Sofia (Ayasofya Müzesi), que actualmente é um museu. E confesso que não sei dizer qual delas a mais bonita.
Antes que o dia terminasse ainda tínhamos a cisterna (Yerebatan Sarnici) e o palácio de Topkapi (Topkapi Sarayi) para conhecer e já ao fim do dia, passámos a ponte Galata e fomos para o outro lado da Europa percorrer a principal rua das lojas, a Istiklal Caddesi até chegar à Torre Galata (Galata Kulesi).
Na hora de comer era de quem mais experimentava! Tudo sabia bem, até mesmo os pratos com pior aspecto visual. Deixo registado os que não esqueci: Izgara Köfte (bolas de carne grelhada), Pilav Üstü Tavuk Döner (peito de galinha com arroz), Kumpir (batata doce gigante com os ingredientes à escolha), Uludag limonata (sumo de limão), Dil (bolinhas de peixe grelhado) e claro baklava. Com gelado é divinal!

Os dias seguintes foram preenchidos com trabalho, uma visita ao Palácio Dolmabahçe (simplesmente maravilhoso) e um passeio de barco pelo Mar Marmara (Marmara Denizi).
Para conhecer Istambul o melhor mesmo é calcorrear as ruas a pé, mas para quem não é tão resistente pode sempre apanhar um táxi, ou andar de metro, tram (metro de superfície), funicular ou autocarro. O táxi e o tram são os melhores.
Na hora da partida com destino a Izmir, custou dizer adeus (Hoşça Kalin), mas tinha mesmo de ser.

Torre do relógio em Izmir
Em Izmir a temperatura chegava aos 40º à sombra! Oficialmente a cidade nunca chega aos 40º, pois essa temperatura faria com que as pessoas ficassem em casa e não fossem trabalhar. Sorte que estava vento e a brisa era bastante fresca.
A cidade situa-se à beira-mar e é muito idêntica à cidade de Quarteira, mas em dimensão muito maior. No entanto, temos de percorrer uma hora de carro para podermos usufruir de uma praia, no Mar Egeu (Ege Denizi). No percurso aproveitamos para conhecer duas zonas históricas Selçuk e Ephesos.
Também aqui a despedida não foi fácil, mas era hora de levantar voo de regresso a casa.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A espreita beijos

campo de papoilas
Era uma vez uma rapariga a quem chamavam a espreita beijos!

Foi numa noite de quarto crescente que os meus olhos repararam nela. Na espreita beijos. Na rapariga que caminhava ao som das suas pisadas solitárias e ao encontro de um alguém.
Caminhava por entre um campo de papoilas, que dava ao seu rosto um tom leve de timidez.
Cansada, talvez de caminhar, estendeu por fim o seu corpo no imenso vermelho e mergulhou o seu rosto no pedaço de Lua.
Naquele instante não resisti. Saí da minha sombra e aproximei-me dela. Apresentei-me. Num gesto rápido, inclinei o meu rosto para que os meus lábios pudessem beijar a sua face rosada.
Ela sorriu. Seria para mim? Perguntei-lhe…
Não. Respondeu-me ela. E com o seu sorriso espevitado disse-me:
"- Eu sorria para o teu beijo. Eu espreitei-o!"
Sei que naquele instante fiquei com cara de palerma e sem reacção.
De sorriso embaraçado e vencido deixei-me cair ao seu lado e mergulhei no seu pedaço de Lua.
O silêncio chegou e os meus beijos fugiam de mim. Foi assim que eles a conheceram.
Numa noite de quarto crescente os meus beijos deixaram-se espreitar pela espreita beijos.

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Nota: A espreita beijos marca o início do desafio "conta-me uma história" e obviamente não irá a votos.
Amanhã publicarei a primeira história a concurso, conto convosco para pincelarem nas histórias e votarem na vossa preferida.
Por último, mas não menos importante, aproveito para agradecer aos participantes.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Roma

Fontana de Trevi
Roma. Uma cidade monumental. É assim que a defino. Tudo em Roma é colossal. As ruas revelam anos e anos de história. Caminhar por elas é caminhar de rosto esticado para cima até doer o pescoço. É surpreender-se em cada esquina e em cada praça. É carregar no botão da máquina fotográfica sem cessar para mais tarde recordar. É reconhecer quase toda a cidade, sem nunca lá ter estado antes.
Roma. Uma cidade também desmesuradamente turística e suja. Com arredores feios e ainda mais sujos. Em que se conta pelos dedos os que primam pela simpatia e pela boa disposição.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ensaio 3| A Utopia do direito à Preguiça

Sleeping, de Paula Rego Sleeping, de Paula Rego

Será possível antever um mundo em que o indivíduo estará liberto de uma série de ocupações e onde estas serão entregues à máquina?

Paradoxalmente à questão temos sociedades em constante aceleração, que correm atrás do tempo, sempre atrasadas e ansiosas. Porquê? Porque não se previu a globalização, nem a obsessão pela competitividade, bem como os horários de trabalho surrealistas. Os poderes continuam a exigir um crescente leque de actividades que pouco ou nada têm a ver com o lazer. Eles controlam e robotizam as sociedades através do crescente produtivismo e mais uma vez, a hora do ócio, do justo momento do cogitar, da especulação desinteressada, do cultivo da nova ideia e da contemplação parece querer escapar por entre as mãos.
O desejo de que a máquina libertaria o indivíduo do seu cansativo trabalho, proporcionando-lhe tempo para os prazeres do espírito e do corpo não foi alcançado ainda. O que se verifica é cada vez mais a submissão das sociedades às novas tecnologias. As sociedades continuam a deixar-se atrair para miragens e com isso os poderes globais neutralizam-nas, inibem-nas e continuam a proceder à massificação e ao auto-aprisionamento das mesmas.
Os poderes dos media incutem, através de meios publicitários, novas e estrondosas máquinas que uma vez adquiridas aumentam o tempo livre. Paradoxalmente é necessário trabalhar muito e muito mais para atingir esse fim. Considerámos assim relevante citar as palavras em forma de slogan de Kasimir Malevitch: «A verdade do teu esforço é o caminho para a Preguiça.»
O poder político e económico aborda a pragmática do trabalho como principal razão de viver. O indivíduo corre loucamente, nunca tem tempo para nada. Assim, o que resta de tempo para a Preguiça é agora substituído por um hedonismo fanático pelo consumo.
Os poderes sempre os poderes! O indivíduo extenuado pelo trabalho acaba por encontrar a frustração e esta dá origem à apatia e à preguiça. Passa a viver em total descrença de si próprio. Transforma-se e adoece. Tarde chega a sabedoria. A utopia não se alcança é para se caminhar até ela.
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Bibliografia:
DACOSTA, Fernando, «Preguiça: Reformular a Utopia», in Sete Pecados Capitais.
MORE, Thomas, Utopia.
SANTOS, Maria Lourdes Lima, «”Cultura dos Ócios” e Utopia», in Cultura e Economia.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Ensaio 2| A Utopia do direito à Preguiça

Será então que num mundo obcecado pelo consumismo e pelo trabalho, já não temos direito à Preguiça?

Num lado da balança temos os que tentam demonstrar como a Preguiça está nos alicerces do indivíduo. Onde a máquina um dia chegará para o libertar das tarefas e assim, finalmente o indivíduo poderá gozar o tão desejado tempo para a liberdade e para o espírito.
No outro lado temos os que defendem que o mundo está para o progresso, como o progresso está para o mundo e que para lá chegar é necessário muito sacrifício e trabalho árduo.
O Pensador, de RodinO Pensador, a famosa escultura de Rodin, conduz-nos para os grandes momentos da criação artística e do pensamento filosófico. Na Grécia Clássica foi exactamente o uso do tempo livre dedicado ao ócio que definiu os fundamentos da cultura, da ética e da moral ocidental. Nessa época, porém, o pleno gozo do lazer era um direito de poucos. No tempo de Péricles a sociedade ateniense era composta por homens livres. No entanto, o tempo liberto para o ócio e a criação só era possível graças ao trabalho dos escravos.
Também a antiga expressão: «dolce far niente» é tão conhecida quanto mal interpretada, pois a mesma nunca significou um convite à preguiça ou à apatia. Esta é antes uma invocação para o aproveitamento da vida, para o recompor do espírito especulativo e, implicitamente, o aliviar da tensão do trabalho, sobretudo o intelectual.
Claro que nesta luta pela Utopia do direito à Preguiça teremos sempre utópicos ou não.
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Continua...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ensaio 1| A Utopia do direito à Preguiça

Mapa da ilha imaginária de Thomas MoreMapa da ilha imaginária de Thomas More

Sempre que penso neste tema viajo até à ilha imaginária de Thomas More onde cada indivíduo trabalhava e executava as tarefas úteis e essenciais na ilha e entre as mesmas ocuparia o seu tempo livre como bem o desejasse. O tempo do ócio seria finalmente atingido para pensar livremente.
Presentemente o trabalho ocupa a maioria dos indivíduos, inclusive até aqueles que tentam dedicar-se a actividades ligadas à meditação. Assim, a Preguiça, ou até mesmo o ócio, enquanto actividade criativa é hoje considerada uma afronta aos poderes. Vivemos no apogeu do capitalismo e da globalização. Nunca o indivíduo ficou sem tempo para si como actualmente.
Será então que num mundo obcecado pelo consumismo e pelo trabalho, já não temos direito à Preguiça?
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continua...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Perfil

Perfil ______________________
a 28 de Junho foi recortado o meu melhor lado em menos de três minutos à saída do Foro Romano, em Roma. Lamento não poder partilhar o nome do artista, mas com o entusiasmo da conversa esqueci-me de lhe perguntar o nome.

sábado, 12 de julho de 2008

azul cor de Céu


Naquela madrugada o dia acordou ensonado. Bocejou e deixou-se estar. Ao despontar da manhã espertou do seu sono e espreguiçou-se por breves momentos para espantar a preguiça que insistia em querer ficar. Quando finalmente terminou o seu exercício matinal já o sol raiava.
Depressa escondeu as dispersas almofadas brancas, que por ali ainda andavam perdidas e num ápice vestiu o Céu com um infinito manto azul. Era de um azul tão azul como o azul cor de Céu!
Como o Céu já estava devidamente apresentável, o dia deixou-se ficar quieto e sossegado. O tempo que continuasse a fazer o resto!
O tempo deixou a manhã passar e a tarde chegou. Contudo, a tarde não gostou do tom de azul que a manhã lhe deixara e pintou outra demão de azul no manto que a cobria. O dia não interviu e deixou que a tarde pincelasse a sua tarde com um azul cor de Verão e de mar.
Ora, era bem verdade que o mar estava longe, mas deixava-se sempre tocar pelo Céu no horizonte! E aí o dia também não se metia!
Com o passar do tempo, o tempo deixou passar a tarde e a noite chegou. Já o dia adormeceu e a noite, a noite enegreceu o manto azul.
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Nota1: Estas palavras marcam o final do desafio.
Por uma razão especial, desta vez os concorrentes não irão a votos. Como não há vencedores, nem vencidos fico aguardar a morada de todos os participantes na minha caixa de e-mail, para que eu possa enviar a prenda de cada um. Esta é a minha surpresa para os cinco que aceitaram o desafio. Obrigada a todos.

Nota2: A pedido de muitas famílias informo todos aqueles que ficaram de fora, mas com imensa vontade de participar, que podem enviar, durante a próxima semana, o texto ou poema. Será um extra-desafio, que terei muito gosto em receber na minha caixa de e-mail e publicar no tonsdeazul.
Beijos e abraços!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Em tempos fui um soldado

Contemplo o que o meu olhar alcança
Em tempos fui um soldado. Um soldado com grandes feitos e de grande orgulho. Mas esse tempo passou e com ele chegou o esquecimento de um povo. Agora não passo de uma memória que ainda perdura nesta isolada terra, à qual não pertenço. Passo dias quentes e noites gélidas, noites amenas e dias frios aqui neste pequeno recanto a contemplar o rio que desce. Observo as embarcações que descem e sobem o rio e esses momentos definem o meu passar dos dias. As pessoas por mim passam e há até quem me ache uma certa graça. Encostam-se a mim de rosto alegre e deixam-se recordar junto da minha álgida figura. Nada sabem de mim! Nem nada querem saber! Desconhecem os sonhos que sufoquei... Os amores que me esqueceram... E até as lágrimas que nunca caíram! Em mim apenas vêem a estátua que agora sou! O homem que fui morreu, no dia em que fui um soldado.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

As do-ze pa-la-vras ou talvez não...

Mar azul da praia da Amoreira
O menino carteiro gosta imenso de cartas. E as cartas levam e trazem palavras. Muitas e muitas palavras. E então vai daí ousou em desafiar-me, juntamente com menina linda Teté (dias depois), para escrever um texto onde eu revelasse doze palavrinhas de que gostasse! Só que eu não sou tola e não vou cair na esparrela de vos confidenciar as doze palavras que me causam cócegas no céu da boca!
Como posso permitir que fiquem a saber que eu gosto de sentir
saudades das palavras, porque a ausência delas permite-me “ler-te”?
Não vos posso contar que eu gosto desta (
olhar), desta (sorriso) e desta (silêncio), porque a sua sonoridade transmite tantas outras palavras que por vezes teimam em escapar de mim. E se vocês soubessem que eu também gosto desta (azul), porque me conduz para o burburinho desta (mar), então já ficariam a saber mesmo muito de mim.
Contar-vos que uma noite sem
luar me deixa triste; e que gostaria que a semana começasse à terça e terminasse à quinta, é confessar-vos quase tudo daquilo que eu sou! E isso, meus caros, não pode ser! É que está mesmo, mesmo fora de questão! Por isso nem pensem que eu vou ser palerma ao ponto de vos soletrar as tais palavras que tanto ecoam em mim! Vão mas é apanhar cata-ventos!

Vou mas é passar esta árdua tarefa para estes doze eleitos, onde tantas vezes me perco em leituras comentadas ou silenciosas:
Ana Fonseca:
http://www.praiadeserta.blogspot.com/
Vítor: http://www.upvalencia.blogspot.com/
(Podem sempre escolher as doze palavras e não escrever um texto.)

Pinturas populares (últimos 30 dias)