quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"os felizes"


Era uma vez um pescador que não tinha filhos. Tinha 40 anos de idade e era só uma metade de homem. Comprou um grande boneco de pano e falava-lhe como se de filho se tratasse. Esse pescador chamava-se Crisóstomo.
Era uma vez um rapaz que era filho de quinze homens, mas não tinha pai, tinha um avô, que lhe morreu. Era bom a matemática, era um génio, ensinava cães e queria namorar com a Teresa. Esse rapaz chamava-se Camilo.
Era uma vez uma anã que media uns oitenta centímetros, que deu à luz um filho, que seria um homem todo inteiro. Morreu ao dar à luz e não soube qual dos quinze pais seria o pai do seu filho. Essa anã não tinha nome.
Era uma vez um velho, que quis cuidar da criança, que iria ser um homem por inteiro. Iria ser o seu avô e falar-lhe-ia da avó Carminda e de livros, que lhe protegeriam o corpo do colesterol. Esse velho chamava-se Alfredo.
Era uma vez a mãe de uma mulher enjeitada, que preparava a sua filha para o filho de um vizinho. Cheirava a filha quando esta chegava a casa, para lhe sentir o cheiro de rapazes. Essa mãe chamava-se Maria.
Era uma vez uma filha enjeitada, que tinha uma ferida que tinha de permanecer intacta, pois esta depois de aberta nunca mais a curaria. Num fim de tarde de verão abriu a ferida. Tinha um nome bonito. Essa filha enjeitada chamava-se Isaura.
Era uma vez um homem maricas, que para calar os vizinhos e alegrar a sua mãe, se casou. Mas um homem maricas não podia deixar de o ser. Esse homem chamava-se Antonino.
Era uma vez a mãe de um homem maricas, que não teve coragem de desfazer, de rachar, nem matar o seu filho. Sentia culpa duas vezes, por o seu filho lhe dar desgostos, mas amava o seu filho. Essa mãe chamava-se Matilde.
Era uma vez um velho viúvo, que procurava mulher para casar, por não querer morrer sozinho. Tinha uma casa, terrenos a perder de vista e uma galinha gigante como dote. Esse velho chamava-se Gemúndio.
Era uma vez uma mulher que no dia em que casou também morreu, em cima da galinha gigante, que iria ser o banquete da boda. A sua cria nesse dia ficou órfã. Essa mulher chamava-se Rosinha.
Era uma vez uma cria que se chamava Mininha, que era o nome pequeno de Emília.

Esta é história de um pescador chamado Crisóstomo, que adopta um filho chamado Camilo, que teve um avô chamado Alfredo, gostava da Teresa e que empurra o seu pai para uma mulher enjeitada chamada Isaura, que teve uma mãe chamada Maria e era casada com um maricas chamado Antonino, que tinha uma mãe chamada Matilde, que era a patroa de uma mulher chamada Rosinha, que morreu no dia em que se casou com um velho viúvo chamado Gemúndio, que  na sua morte não foi beijado pela cria chamada Mininha, que ganhou um grande boneco de pano, que lhe chamou de irmão.

«Ser o que se pode é a felicidade.
[...] Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.»

Valter Hugo Mãe regressa às maiúsculas com O filho de mil homens e na imperfeição dos seus personagens, inventa uma família e encontra a perfeição na história de cada um destes felizes.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol"

Livraria Ler Devagar, Lx Factory, Lisboa

«Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia-se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstractas que o poderiam abater muito concretamente.»
O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"paga-se e reza-se"

«A deputação é uma espécie de funcionalismo para quem é incapaz de qualquer função. É o emprego dos inúteis. Por isso o parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, mal-dizer um pouco, e combinar partidas de whist
[...] 
E assim se passa, defronte de um público enojado e indiferente, esta grande farsa que se chama a intriga constitucional. Os lustres estão acesos. Mas o espectador, o País nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e a todos acha impuros e nulos; não se interessa pelas cenas e a todas acha inúteis e imorais. Só às vezes, no meio do seu tédio, se lembra que para poder ver, teve que pagar no bilheteiro! 
Pagou - já dissemos que é a única coisa que faz além de rezar. Paga e reza. Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam, soldados que o não defendem, padres que rezam contra ele. Paga àqueles que o espoliam, e àqueles que são seus parasitas. Paga os que o assassinam, e paga os que o atraiçoam. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga tudo, paga para tudo.
E em recompensa, dão-lhe uma farsa.
[...]
Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.»
Uma Campanha Alegre, Eça de Queirós

terça-feira, 20 de setembro de 2011

«Cabriole»


Cabriole, Léo Silly-Pélissier, Antoine Bremont, Adrien Gentils e Anthony Lossmann, 2010
(para ver até ao fim)

sábado, 17 de setembro de 2011

Trilho "Ross Castle (Ross Island & Lakes)"

«The air was filled with the fragrance of wild flowers, and the eye wherever it turned beheld a region of delight, in which nature seemed to have unlocked all her treasures.»
Lewis Dillwyn

Percurso: Pedestre/Bicicleta
Localização: Parque Nacional de Killarney, Irlanda
Distância aproximada: 5-6 km
Duração aproximada: 1-3 horas
Grau de dificuldade: Baixo

O Parque Nacional de Killarney é feito de trilhos e é dos mais bonitos que conheci na Irlanda. O percurso pedestre iniciou-se dentro dos portões onde se encontram os jardins da Killarney House (EN 71) e terminou nos portões que têm saída para a Saint Mary's Cathedral (Beech Rd). Tanto os jardins como a catedral são uma pequena maravilha de beleza, tranquilidade e silêncio.

O trilho é completamente plano. Ao longo do percurso, um curso de água, do Lough Leane, acompanha-nos bem de perto até chegarmos ao Ross Castle. Mas até lá chegarmos vamos apreciando as pontes velhas, que de onde a onde vão aparecendo, e a densa vegetação, sempre muito verde. Também se encontram alguns bancos rústicos, que nos convidam a sentar e a contemplar os jardins, o horizonte, as montanhas ao longe, ou apenas a fechar os olhos e colocar os outros sentidos em alerta. Neste trilho também encontrámos Chapins-azuis e Corvos. No lago não faltavam Cisnes e Patos-reais, mas o melhor estava reservado para o regresso, onde deparámo-nos com uma família de Veados.

Em pequenas encruzilhadas, somos sempre tentados no caminho a seguir, mas como o nosso destino era o castelo, havia que seguir por essa indicação e deixar as outras à espera por um outro dia. Os pedestrianistas e as carroças turísticas, que seguem o nosso trilho, são alguns, mas os ciclistas são ainda mais! Deixo já aqui registado, que a melhor opção para visitar os parques e os lagos de Killarney é mesmo a bicicleta. Daí que na segunda visita, a esta inesquecível cidade, tenha optado pelo aluguer de uma bicicleta (10€/dia). Nesse dia, pedalei ao ritmo da chuva. E não foi um pedalar solitário, pois a chuva é coisa que não assusta o típico irlandês e muito menos o turista, que está ali com o intuito de aproveitar ao máximo! Mesmo assim, este soube-me a despedida, pois os dias para o regresso a casa já estavam bem próximos.

Ao chegarmos ao nosso destino ficámos maravilhados com o cenário envolvente. Momento de paragem, para aproveitar toda a ambiência e tranquilidade que nos preencheram o olhar e a alma. Na hora de voltar as pernas obedecem mais à vontade de ficar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

o fidalgo da lança

DonCosei Kawa, Japão

«D. Quixote enfrascou-se tanto na sua leitura que a ler passava as noites inteiras em claro e os dias cada vez mais na escuridão; e assim, do pouco dormir e do muito ler, secou-se-lhe o cérebro, de maneira que acabou por perder o juízo. Encheu-se-lhe a imaginação de tudo o que lia nos livros, não só de encantamentos como contendas, batalhas, desafios, feridas, galanteios, amores, adversidades e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda a trama daquelas soadas e sonhadas ficções que lia, que para ele não havia outra história mais verdadeira no mundo. [...]
Na verdade, já louco varrido, acabou por ter a ideia mais estranha que até hoje teve um louco no mundo, e foi que lhe pareceu proveitoso e necessário, tanto para aumentar a sua honra como para o serviço da sua república, tornar-se cavaleiro andante, e ir por todo o mundo com as suas armas e o seu cavalo em busca de aventuras e executar tudo o que lera que os cavaleiros andantes realizavam, reparando toda a espécie de ofensas e expondo-se a riscos e perigos, com o que, vencendo-os, alcançasse eterno nome e fama.»
O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

as cores do sentir


Ela não sabia como o tinha deixado entrar. Não sabia quando tudo tinha começado a borboletear dentro dela. Nem sequer sabia se ele tinha realmente entrado! E talvez ele também não o soubesse.
Ela gostava de o ter por perto. Gostava do seu jeito sério de falar, que intercalava com sorrisos tímidos. Oh, como gostava desse seu sorriso! E não conseguia evitar a constante observação, como quem procurava entranhar-se nas minuciosidades das suas palavras. Talvez assim, conseguisse encontrar nas palavras dele o que ainda continuava a procurar nas cores do seu sentir.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"o galo que salvou as gentes dos remorsos"



«Esta é a terra do galo milagroso que depois de assado cantou e veio a ter descendência, tanta que, se ainda não chegou ao milhão, pouco lhe há-de faltar. A história conta-se em palavras breves e não é mais maravilhosa que falar Santo António aos peixes e eles ouvirem-no. Foi o caso que em Barcelos houve, em imemoriais tempos, um crime, e não se apurava quem fosse o criminoso. Deu em caírem as suspeitas num galego [...]. Foi o homem preso e condenado à forca, e antes de ao patíbulo o levarem pediu para ir à presença do juiz que dera a sentença. O tal juiz, se calhar por se sentir muito contente consigo próprio e com a justiça feita, estava comendo do seu bom e do seu melhor, enquanto numa travessa um galo assado esperava o trinchante. Tornou o galego a afirmar-se inocente, com risco de estragar a digestão do juiz e seus amigos, e, em desespero de causa, desafiou todas as leis do mundo e do céu, e garantiu: «Tão certo é estar eu inocente, como esse galo cantar quando me enforcarem.» O juiz, que julgava saber muito bem o que é um galo morto e assado, e não adivinhava de que primores é capaz um galo honrado, largou a rir. Foi uma surriada. Levaram o condenado, continuou o almoço, e, às tantas, quando enfim avançava o trinchante para o assado, levanta-se o galo da travessa, pingando molho e desarrumado as batatas, e lança pela janela fora o mais vivo e repenicado canto de galo que na história de Barcelos se ouvira. Para o juiz foi como se tivessem soado as trombetas do Juízo Final. Levanta-se da mesa, corre ao lugar da forca ainda de guardanapo atado ao pescoço, e vê que também ali haviam funcionado os poderes do milagre, pois o nó se deslaçava, facto que muito espantava os assistentes, vista e provada a competência do carrasco.
O resto já se sabe. Foi solto o galego, mandado em paz, e o juiz voltou ao almoço que arrefecia. Não conta a história qual teria sido o destino do milagroso galo, se foi comido em acção de graças, ou venerado em capela enquanto o tempo lhe não desmanchou a armação dos ossos. O que se sabe, por evidentes provas materiais, é que [...] na figura dos seus descendentes de barro, voltou ao forno para ser mostrado vivo em todas as feiras do Minho, com todas as cores que um galo tem ou podia ter.»
Viagem a Portugal, José Saramago

domingo, 4 de setembro de 2011

fins de verão

Percussão, Serafim, Portugal


«A arte, mais do que uma imagem pintada numa tela, é a forma como essa imagem toca o coração de quem a olha.»
A Trança de Inês, Rosa Lobato de Faria

Pinturas populares (últimos 30 dias)